Donato fez uma pausa dramática, ajustou o anel de selo no dedo e continuou, com a voz grave:
— E eu faço questão absoluta de que essa criança cresça aqui, sob o teto da Mansão Moretti, para aprender o que são valores de verdade. Não vou permitir, sob hipótese alguma, que um sangue do meu sangue seja criado por aquela desqualificada. É um Moretti! E se for menino, já aviso: será o sucessor legítimo do Nicola no Grupo Moretti, exatamente como manda a nossa tradição. Não se discute com a tradição.
Dante levantou-se, e deu um passo à frente, ajustando o terno com o maxilar travado. A frustração transparecia em seu olhar.
— Papai, preste atenção no que está dizendo!
Avisou Dante, a voz vibrando em uma urgência contida.
— O Nicola não vai aceitar isso. Ele já deixou tudo decidido: a Caterina vai ficar com a guarda do bebê. Ele só pretende trazer a criança no final do ano, nas férias, quando estiver maior, e em algumas datas festivas da família. E sem a presença da Caterina. Apenas a criança.
Donato nem sequer se mexeu na poltrona de couro. O patriarca, com a teimosia enraizada no rosto marcado pelo tempo, soltou um riso de escárnio antes de desferir um golpe firme no braço da cadeira.
— Bobagem, Dante! Nicola está cego, não faz a menor ideia do erro absurdo que está cometendo! Deixar o próprio filho nas mãos daquela desqualificada? Ela não tem moral, nem dignidade para criar o meu bisneto!
O velho levantou-se devagar, a figura imponente projetando uma sombra ameaçadora pela sala.
— Aquela criança carrega o sangue dos Moretti. Vai ser moldado sob as nossas tradições, sob as minhas regras. Se for homem, herdará o império do Grupo Moretti. Que tipo de caráter ele teria crescendo ao lado de uma mulher miserável como aquela? Eu jamais permitirei.
Stella interveio, dando um passo à frente com as mãos trêmulas, tentando conter o desastre iminente.
— Meu sogro, escute o Dante, por favor... Isso vai desencadear uma guerra sangrenta entre o Nicola e a Caterina. Vai destruir o pouco que resta de amizade entre os dois.
— Que o Nicola pense o que quiser!
Esbravejou Donato, os olhos faiscando em fúria calculada.
— Vou mover céus e terra, usar cada gota da influência do nome Moretti para arrancar a guarda daquele bebê das mãos dela. Ela não vai ficar com a criança. Eu dou a minha palavra.
Elisabetta, até então encolhida no canto da sala, deu um passo incerto, a voz quase sumindo diante da autoridade do pai.
— Mas... como o senhor pretende fazer algo assim, papai?
— Só estou esperando a criança dar o primeiro suspiro para trazê-la de volta para a Itália.

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