O rastro de pneu cantou alto na entrada de paralelepípedos, mas Caterina sequer se importou. Ignorou o caminho para sua própria cobertura no centro da cidade; o destino final, inevitável e indigesto, era a Mansão Visconti.
Ao cruzar as portas duplas de madeira maciça, a atmosfera pesada do hall parecia congelada no tempo. Na sala de estar, banhada pela luz amarelada dos lustres de cristal, Stefano e Lucrécia Visconti repousavam no sofá de couro. Liam o jornal com uma tranquilidade plácida, a fachada perfeita de uma aristocracia decadente.
Contudo, o baque seco da porta contra a parede e os passos descompassados de Caterina quebraram o encanto.
Lucrécia foi a primeira a erguer os olhos. Ao ver a filha, os cabelos desgrenhados, o rímel preto escorrendo em sulcos sombrios pelas bochechas e os lábios trêmulos, a taça de chá em sua mão balançou.
— Caterina! O que houve, minha filha?
Lucrécia levantou-se num pulo, a voz afiada pelo sobressalto.
— Olhe para você! Sua maquiagem está toda borrada, você estava chorando... O que aconteceu?!
Stefano dobrou o jornal com lentidão calculada, mas o olhar sob as sobrancelhas espessas era puro gelo.
— Sua mãe tem razão, Caterina. Que espetáculo lamentável é esse? Nós estamos preocupados, olhe o seu estado! Você vai se tornar a Sra. Moretti no sábado! Pretende andar por aí como uma mendiga? Se a alta sociedade te vê nesse estado, o que vão falar da nossa família?
Caterina soltou uma gargalhada histérica, um som seco que ecoou pelo teto alto da sala.
— É só com isso que vocês se importam? Com a droga da aparência?!
Gritou ela, a voz embargada pelo ódio e pela dor.
— Eu quero que a aparência se exploda! Eu não tô nem aí para o que os outros vão pensar!
— Caterina! Que modos são esses?!
Lucrécia deu um passo à frente, segurando o vestido de seda.
— Pare de escândalo! O que foi que aconteceu?
— Acabou, mamãe!
Caterina cuspiu as palavras, caindo em si.

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