O ar no escritório da cobertura de Nicola estava denso, impregnado com o cheiro forte de uísque caro e o peso sufocante do arrependimento. Do lado de fora, a vista panorâmica da cidade parecia uma prisão de vidro. A menos de uma semana do casamento, o ambiente não lembrava em nada uma celebração, parecendo mais um velório antecipado.
Nicola encarou o fundo do copo, os olhos injetados, antes de virar mais um gole de uma vez. O líquido queimou sua garganta, mas a dor interna permaneceu intacta.
— Seu casamento é daqui a cinco dias, Nicola.
Valerio quebrou o silêncio, a voz carregada de uma mistura de indignação e pena enquanto observava o primo se autodestruir na poltrona de couro.
— E você está aí, jogado, virando uma garrafa atrás da outra como se estivesse esperando a sua própria execução.
Nicola travou o maxilar, os dedos apertando o cristal com tanta força que as articulações ficaram brancas.
— Eu não sinto nada, Valerio.
Desabafou, a voz rouca, falhando na última sílaba.
— Eu pensei que quando este dia chegasse, eu estaria radiante, pronto para subir ao altar com a mulher da minha vida... Mas olhar para a Caterina agora só me dá um aperto no peito. Não é isso que eu quero.
— Claro que não é.
Retrucou Valerio, dando um passo à frente e apontando o dedo com firmeza.
— Porque você não ama mais a Caterina. O seu coração é da Juliana. Pena que você só teve a coragem de admitir essa verdade patética depois de engravidar a pessoa errada.
O golpe verbal atingiu Nicola em cheio. Ele afundou a cabeça nas mãos, arrastando os dedos pelos cabelos em um gesto de puro desespero.
— E o pior de tudo é ver a empolgação doentia dela com esse casamento.
Murmurou Nicola, sem olhar para o primo.
— Você tem ideia do que ela fez hoje? Já foi até a mansão para mandar decorar o quarto do bebê. Como se o bebê já fosse nascer.
Valerio soltou uma risada amarga, balançando a cabeça.
— E o que você esperava? Você ergueu aquela mansão tijolo por tijolo pensando nela. Pobre Gina... Quando ela descobriu na época, foi o golpe misericordioso que terminou de destruí-la.
O nome da falecida esposa fez o ar sumir dos pulmões de Nicola. A dor da culpa, antiga e sangrenta, voltou a arder.
— Eu nunca amei a Gina! Você sabe disso!
Respondeu Nicola, a voz subindo de tom na tentativa desesperada de se defender.
— O meu objetivo sempre foi a Caterina, a caçula! Quando planejei a mansão, eu não fazia ideia das armações da família Moretti, daquele casamento arranjado às pressas com a irmã mais velha!
— Mas ainda bem que a Gina nunca precisou morar debaixo daquele teto.
Valerio cortou, sem dar trégua.
— Paris deveria ter sido um recomeço, mas você fez questão de levar o inferno na bagagem. A Caterina não dava um minuto de paz para a própria irmã, e você? Você foi o maior cúmplice disso.
Nicola fechou os olhos, mas não conseguiu escapar das memórias que o assombravam. Valerio tinha razão. Bastava Caterina estalar os dedos ou dar uma desculpa qualquer ao telefone para ele abandonar Gina sozinha no apartamento em Paris. As viagens secretas para a Suíça, os aniversários esquecidos, o abandono emocional... Ele havia empurrado Gina para a escuridão da depressão até que não restasse mais nada dela. E agora, o fantasma da tragédia voltava para cobrar a conta.
— Eu só estou levando isso adiante por causa da criança.

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