A luz da manhã de quarta-feira mal atravessava as persianas pesadas da sala da presidência do Grupo Moretti, mas a atmosfera ali dentro já era sufocante. Nicola encarava a vista panorâmica da cidade com as mãos afundadas nos bolsos, a mandíbula contraída. O silêncio da sala foi cortado pelas batidas firmes na porta. Berlusconi, o lendário e implacável advogado da família Moretti, deu um passo à frente.
— Quero que investigue cada centavo que passou pelo Grupo Visconti nos últimos meses.
Disse Nicola, sem sequer se virar. A voz soou firme, desprovida de qualquer margem para contestação.
— Quero relatórios detalhados. Contas, contratos, movimentações ocultas. Tudo.
— Considere feito, senhor!
Respondeu Berlusconi, ajustando o paletó com sobriedade.
— Quero isso na minha mesa hoje. Antes das quatro da tarde. Fui claro?
— Cristalino, senhor.
O tempo pareceu arrastar-se sob uma contagem regressiva invisível. Faltavam poucos minutos para o horário limite quando a porta da presidência se abriu novamente. Berlusconi trazia sob o braço uma pasta de couro escuro, pesada de segredos. Ele a depositou sobre a madeira nobre da mesa de Nicola, o olhar grave de quem entrega uma sentença de morte.
— O que descobri ultrapassa a mera falência, senhor.
Começou o advogado, a voz baixando um tom.
— Para conter o rombo financeiro, o patriarca Visconti recorreu a engenharias financeiras no mínimo obscuras... Estamos falando de agiotagem pesada e esquemas estruturados de lavagem de dinheiro. Se essa dívida não for quitada até o próximo mês, o escândalo será inevitável. A polícia baterá à porta deles com mandados de prisão. O nome da sua noiva e a reputação daquela família vão descer pelo ralo, sob o olhar de toda a imprensa nacional.
Nicola sentiu um golpe frio no peito, embora sua feição tenha se transformado em uma máscara de pedra.
— Os Moretti não se associam a criminosos a um passo da cadeia.
Rosnou ele, os olhos faiscando de uma fúria contida.
— Isso destruiria nossa reputação. Seria um massacre no mercado da moda e da alta-costura. Nossos investidores internacionais e clientes de elite não tolerariam um respingo sequer desse lamaçal.
— Temo que a situação seja ainda mais pessoal, senhor.

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