Naquela mesma semana, o patriarca Donato Moretti decidiu quebrar a rotina e o sistema nervoso de toda a sua descendência. Ele surgiu na sala de estar ostentando seu melhor paletó e um misterioso sorriso de canto de boca.
— Hoje não janto em casa. Tenho um compromisso urgentíssimo e não preciso de escolta. O motorista me leva.
Dante, que quase engasgou com a própria saliva, olhou para o pai como se ele estivesse anunciando uma viagem sem volta para Marte.
— Papai... o senhor não sai de casa desde a virada do milênio! Mal vê seus amigos! Onde é esse 'compromisso'? Vai entrar para um clube de luta secreto?
— Vou ver um velho conhecido. E pare de me olhar com essa cara de detetive de novela das oito. Não me espere acordado.
Antes que Dante pudesse abrir a boca para interrogar o velho, o motorista apareceu na porta, segurando as chaves com a postura rígida de quem escolta uma autoridade internacional.
— Senhor Donato, o carro está pronto. Podemos ir antes que o trânsito piore?
— Claro! Então vamos logo.
Donato deu as costas e saiu a passos firmes usando sua bengala, deixando a família na sala com caras de tacho, tentando processar a fuga épica do octogenário.
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Do outro lado da cidade, na acolhedora casa da família Rossi, a noite prometia ser tranquila. Juliana e sua inseparável amiga Isabel tinham acabado de chegar e já recebiam aquele acolhimento italiano exagerado, regado a abraços apertados e cheiro de molho de tomate fresco.
Tudo ia bem até que a campainha tocou.
Dona Domenica franziu a testa, limpando as mãos no avental.
— Quem será a uma hora dessas? Não estou esperando ninguém, a não ser que o Bruno convidou o colega dele da casa ao lafo.
— Eu não convidei ninguém!
Disse Bruno do sofá.
— Deixa que eu abro, querida.
Disse Giovanni, caminhando calmamente até a porta.
Ao girar a maçaneta, Giovanni deu de cara com a última pessoa que esperava ver no seu mofado tapete de boas-vindas: o lendário Sr. Donato Moretti. Giovanni travou por dois segundos, piscou para ver se não era uma alucinação e engoliu em seco antes de recuperar a pose de bom anfitrião.
— Sr. Donato?! Que... surpresa monumental! Entre, por favor!
A sala virou um absoluto caos silencioso. Todos ficaram de queixo no chão. Juliana, no entanto, abriu um sorriso de orelha a orelha. Ela tinha um carinho enorme pelo velho Moretti e, desde que o namoro desastrado com o neto dele, Nicola, tinha ido para o buraco, a saudade do velhinho era grande.
— Sr. Donato! Que surpresa maravilhosa! Entra logo!

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