Meia hora depois, Isabel abriu a porta do apartamento girando as chaves no dedo, ainda no embalo do seu "momento plenitude". A vibe caía por terra no segundo exato em que ela deu de cara com Juliana desabada no sofá, afogada em um mar de lenços de papel usados, soluçando num ritmo que lembrava uma batedeira no modo turbo.
Isabel congelou, piscou duas vezes para ter certeza de que não estava no apartamento errado e soltou sua bolsa na mesa de centro.
— Ju, pelo amor de Deus, o que aconteceu?! Quando eu saí daqui você estava plena, de pijama comendo pipoca e comemorando que ia maratonar comédia romântica! Você assistiu ao final de Marley & Eu por acidente?
— Pior! Muito pior!
Juliana fungou, limpando o nariz com tanta força que o papel quase rasgou.
— O Nicola esteve aqui. Aquele traste, aquele audacioso, veio aqui exigir o relatório completo de quem é o homem com quem eu estou saindo... e me beijou!
Isabel travou no meio do caminho. A boca dela abriu e fechou três vezes sem emitir som, parecendo um peixe fora d'água, até que o cérebro processou a informação.
— Como é que é?! Eu ouvi direito ou o meu ouvido entupiu de raiva? O ser humano teve a cara de pau de brotar na sua sala e te beijar?
— Sim! Na boca! Sem nem pedir licença!
Juliana choramingou, indignada.
— Que babaca miserável! O cara tá noivo, engravidou a amante sem vergonha dele, está com o casamento marcado e acha que tem passaporte livre para sair distribuindo beijo aqui? Ele perdeu a noção ou vendeu a pouca vergonha na Shopee?
— E tem pior!
Juliana levantou as mãos para o teto, quase num apelo divino.

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