— Ninguém aqui é incompetente, Nicola, para de drama!
Valério encostou-se no armário de mogno, cruzando os braços com um sorriso de quem sabia exatamente em qual ferida tocar.
— Eu sei muito bem a causa desse seu piti generalizado. Desde o segundo exato em que você descobriu que a Juliana está saindo com aquele cara, você virou uma bomba-relógio. O pior é que tá descontando em quem não tem nada a ver com a história. O pessoal do RP nem respira quando você passa. Tem gerente andando de costas nos corredores, parecendo alma penada, só pra ver se você não surge do nada! Você estabeleceu um regime de pânico geral nos seus próprios funcionários.
Nicola ajeitou o paletó, tentando resgatar a pose de grande executivo, embora estivesse visivelmente prestes a explodir:
— Meu humor não tem nada a ver com a Juliana. Você está delirando e criando fanfics, Valério.
— Ah, é? Quer saber? Você tem toda razão, primo! Eu devo estar delirando.
Respondeu Valério, abrindo um sorriso cínico e teatral, aproximando-se da mesa com passos lentos.
— Deve ser a ansiedade, né? Afinal de contas, o seu casamento com a Caterina está logo ali, batendo na porta. Falta o quê? Menos de um mês? Olha que loucura, vocês vão casar primeiro do que eu! E veja só a ironia: eu, que devia estar surtando, tô pleno. Mas você tá aí, uma pilha de nervos. Deve ser a expectativa do grande dia, né? Com certeza não tem nada a ver com a Juliana. É só o nervosismo natural de subir ao altar com a Caterina... o grande amor da sua vida, a mãe do seu filho!
Nicola encarou Valério com um ódio tão denso que parecia capaz de derreter a mesa. Sem dizer uma palavra, ele agarrou um relatório financeiro de cinco páginas, amassou tudo de uma vez transformando-o numa bola disforme do tamanho de um coco, e arremessou com força total na direção do primo.
Valério se esquivou com a agilidade de quem já esperava o golpe, vendo o projétil de papel explodir contra a parede.
— Saia daqui, Valério!
Rugiu Nicola, apontando para a saída enquanto a veia da sua testa parecia prestes a saltar.
...........
A noite, pós a visita estranhamente breve à cobertura de luxo de Caterina, a cabeça de Nicola parecia um liquidador ligado na velocidade máxima sem a tampa. Ele não pensou, não respirou e certamente não respeitou nenhum limite de velocidade enquanto cantava pneu pelas ruas de Milão até o condomínio de Juliana.
O problema era que Juliana já previa o furacão. E a ordem deixada na guarita após o último "incidente" tinha sido clara:

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