Exatamente vinte minutos depois, a porta da diretoria se abriu. Romana, a secretária executiva de Nicola, uma mulher cuja eficiência beirava o assustador, entrou na sala acompanhada pelo Dr. Berlusconi, o lendário advogado do Grupo Moretti.
Dr. Berlusconi não era apenas um advogado; era um homem de terno impecável, postura austera e uma capacidade quase mística de encontrar desastres financeiros em segundos. Ele caminhou com passos firmes até a mesa de Nicola, depositou uma pasta de couro consideravelmente pesada e, com um floreio dramático, abriu os documentos.
Ajustou os óculos no nariz, pigarreou no tom exato de quem vai anunciar uma catástrofe global e começou a leitura do histórico de faturas do cobiçado Cartão Black ilimitado a ferramenta de destruição em massa que Nicola, em um momento de pura demência romântica, entregara a Caterina Visconti cinco anos atrás.
— Senhor Moretti..
Começou o Dr. Berlusconi, a voz grave resando como um julgamento do Apocalipse.
— O saldo da senhorita Visconti não é apenas absurdo; é uma obra de arte do rombo financeiro. Nesses cinco anos, ela não usava o cartão: ela o operava como uma retroescavadeira. Para começar, ela trocou de carro mensalmente. E não estamos falando de sedãs executivos, mas de esportivos importados que fariam qualquer xeque árabe parecer humilde.
O advogado virou a página com um estalido seco.
— As compras em Paris? Alta costura. Ela não comprava roupas, ela praticamente financiava as coleções inteiras da Maison de Couture. Joias? Apenas peças importadas e exclusivas, com cifras que exigem contagem de zeros duas vezes para não perder a conta. Adicione a essa fatura diárias em spas de luxo, tratamentos estéticos banhados a ouro e idas ao salão de beleza que custam o preço de um apartamento popular. E sem contar as inumeras viagens a ilhas e lugares paradisíacos de alto luxo.
Dr. Berlusconi fez uma pausa calculada, olhou por cima dos óculos e soltou a bomba:
— E infelizmente, senhor... isso é só o aquecimento.
Nicola ouvia tudo com a mandíbula tão travada que parecia prestes a triturar os próprios dentes.
— Como é que é?
Esbravejou Nicola, os olhos saltando das órbitas.
— Isso é só o aquecimento? O que mais essa mulher aprontou? Ela comprou um país?
— Quase isso!
Respondeu o advogado, sem piscar.
— Recentemente, consta aqui a aquisição de uma cobertura triplex no bairro mais caro e exclusivo de Milão. No nome dela, claro.
A paciência de Nicola evaporou. Ele arrancou a pasta das mãos do advogado e começou a folhear os papéis freneticamente, vendo números astronômicos passarem diante de seus olhos.
— Mas como diabos eu nunca fiquei sabendo disso?
Vociferou Nicola, encarando o advogado e Romana.
— Como é que alguém compra um império imobiliário no meu cartão, sob o nariz do meu departamento financeiro, e ninguém me avisa?
Romana manteve-se imóvel ao lado da mesa, adotando sua clássica expressão de "eu sou apenas a secretária, não me puxe para o incêndio".

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