Ele não queria agravar o conflito antes de chegar à Vila, temendo preocupar os avós, então engoliu a raiva a seco e deu a partida no carro.
Ficaram em silêncio por todo o trajeto, com a atmosfera tensa ao extremo.
Quando o carro parou, o sol acabara de despontar por entre as nuvens.
A Vila Alvorada na Montanha foi erguida encosta acima, cercada por névoa. A imponente propriedade de estilo oriental era serena e sua nobreza, contida.
Pedro desceu do carro primeiro. Estendeu a mão e agarrou o pulso de Catarina, usando uma força firme e intransigente. Em um tom de persuasão baixa e imperiosa, disse:
— Pare com essa birra. Não deixe a vovó e o vovô preocupados.
Catarina comprimiu os lábios, mantendo-se em silêncio, e permitiu que ele a conduzisse para o interior da propriedade.
Dona Elisa Menezes saiu ao encontro deles, amparada pelas empregadas.
Assim que bateu os olhos em Pedro, a senhora estacou, mas logo em seguida tapou a boca e desatou a rir às gargalhadas.
Apesar de seus setenta anos, ela possuía um espírito lúcido e aberto, desprovida de qualquer afetação ou opressão típica das matriarcas de famílias ricas.
Pedro, ciente do motivo dos risos, franziu o cenho, aproximou-se e tomou o braço dela:
— Vovó, pare de rir, não me faça passar vergonha.
— Seu moleque, aposto que deixou a Catarina brava, não é?
Ao olhar para a inusitada composição das roupas de Pedro, todo o cansaço anterior de Dona Elisa desvaneceu instantaneamente.
Tratavam-se, evidentemente, de tecidos do mais alto luxo, mas acompanhados de uma gravata de cor berrante e estilo frívolo. O conjunto o deixava parecendo tenso e rígido, de um colorido muito esquisito.
Contudo, como Pedro fora agraciado com uma beleza extraordinária — ombros largos, cintura fina e uma postura impecável —, até a combinação mais bizarra, ao repousar sobre seu corpo, acabava sendo sustentada por aquele semblante gélido e altivo e por sua presença imponente.
Longe de parecer feio, acrescentava-lhe um toque de selvageria indomável.
Pedro ergueu levemente uma sobrancelha, olhou para Catarina e disse em tom magoado:
— Vovó, isso é injustiça sua. Fui eu quem foi rejeitado.
— E foi bem feito!
Dona Elisa deu um tapa de leve na cabeça do neto e, virando-se, segurou as mãos de Catarina. Seus olhos transbordavam admiração:
— O vestido que a Catarina escolheu hoje está ótimo. A combinação ficou no ponto certo. Afinal, o moleque finalmente mostrou algum progresso.
Pedro estacou por um segundo.
Catarina conteve um sorriso miúdo:
— Obrigada, vovó.
As roupas que Pedro escolhera para ela no passado jamais condiziam com seu temperamento ou estilo.

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