Assim que Dona Isabela ouviu seu tom urgente e trêmulo, soube que ele estava pensando na própria filha novamente.
— Ela se chama Catarina, é amiga do César.
— Cata... rina?
Dona Isabela o chamou suavemente:
— Silas Laurent, como você tem passado ultimamente?
Houve um longo silêncio do outro lado da linha, até que, finalmente, ele pareceu se acalmar.
— Me desculpe. E obrigado.
Após desligar o telefone, Dona Isabela soltou um longo suspiro, seus olhos cobertos por uma camada de tristeza densa e impenetrável.
Ela olhou para Catarina e explicou baixinho:
— A filha do Senhor Laurent, se ainda estivesse viva, teria mais ou menos a sua idade.
Catarina piscou, surpresa:
— Aconteceu alguma coisa... com a filha dele?
Dona Isabela abaixou o olhar.
— A pequena Elodie, aos cinco anos, voltou ao país com a família e foi levada por traficantes de crianças.
— Mais tarde, quando a polícia desmantelou o esconderijo, descobriram que não era um caso comum de sequestro; era um local de tráfico de drogas e venda de órgãos...
Embora o corpo nunca tivesse sido encontrado, no fundo, todos sabiam que a chance de aquela criança ter sobrevivido era praticamente nula.
Uma filha única, que deveria ter sido criada na palma da mão de uma família poderosa, cercada de amor e mimos, teve um fim tão trágico em uma idade tão tenra.
E César, que na época tinha apenas sete ou oito anos, passou a falar cada vez menos desde então, tornando-se cada vez mais frio.
Ele nunca falava sobre o assunto, mas Dona Isabela sabia melhor do que ninguém que ele vivia mergulhado na culpa.
Culpava a si mesmo por não ter conseguido proteger a pequena Elodie.
Catarina ouvia em silêncio, sentindo o peito ser esmagado por algo invisível, uma dor sufocante.
Quando voltou a si, uma lágrima já havia escorrido sem aviso, caindo fria sobre as costas de sua mão.
Dona Isabela deu tapinhas suaves em sua mão, consolando-a com voz terna:
— Está tudo bem, já passou. Catarina, ouvi dizer que você e o César logo irão para o exterior a trabalho. O Senhor Laurent também está por lá; talvez vocês possam se encontrar.
Catarina ergueu a mão para enxugar a lágrima inexplicável e respondeu em voz baixa:
— Tudo bem.
Ao entardecer, logo após César ligar para avisar que Laura Rolim já estava presa, uma batida violenta e furiosa ecoou repentinamente nos portões da Mansão Quintino.

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