Naquele dia, Franciele ergueu os olhos de uma montanha de planilhas.
Com os olhos vermelhos de cansaço, ela olhou pela janela para a noite já escura e depois lançou um olhar ressentido para a porta do escritório da presidência.
Não conseguiu evitar um suspiro.
Pelo visto, seria mais uma noite de hora extra.
— Franciele, está distraída?
Uma voz monótona e sem emoção a trouxe de volta à realidade num sobressalto.
Franciele olhou, atônita, para o chefe que havia surgido em sua sala sem que ela percebesse.
Nelson bateu os dedos longos duas vezes na mesa dela e a repreendeu com frieza:
— Estamos no horário de trabalho, não é hora de se distrair.
A indiferença fria e implacável dele acendeu uma raiva repentina no peito dela.
Franciele olhou para o relógio na parede e, perdendo a paciência, levantou-se:
— Sr. Sampaio, já são nove e meia da noite! O meu horário de trabalho já acabou faz tempo!
Mário estava passando bem na hora e ouviu quando ela ousou retrucar o presidente.
Ele invadiu a sala na mesma hora, apontando o dedo na cara dela:
— Franciele, como ousa falar assim com o chefe? Peça desculpas agora mesmo!
Desde que Franciele havia sido transferida para a presidência, Mário quase nunca a via e, consequentemente, perdeu as chances de humilhá-la.
Ele estava com dificuldades de dar satisfações a Viviana sobre isso.
Agora que tinha pegado Franciele no flagra, ele com certeza não deixaria barato.
— Sr. Mário, o que o senhor tem a ver com isso? — Franciele zombou.
Mário falou com ar de superioridade:
— Como seu antigo chefe, foi falha minha não ter te ensinado disciplina. É por isso que você está agindo com essa insolência na frente do presidente!
Franciele apenas riu por dentro, com amargura:
— Como você mesmo disse, é meu antigo chefe. Agora eu sou assistente da presidência. Pela hierarquia da empresa, quem está acima de você agora sou eu.
Mário engasgou.
Ele a fulminou com o olhar:
— Sua...!
Antes que ele pudesse terminar, Franciele continuou:
— Exatamente!
Seus dois últimos pedidos de demissão já tinham sido ignorados. O máximo que poderia acontecer por bater de frente com o presidente era ser demitida.
De qualquer forma, ela já não queria mais trabalhar ali.
As sobrancelhas de Nelson se juntaram em um nó instantâneo.
Seus lábios finos formaram uma linha reta.
Ele a encarou com seus olhos penetrantes, demonstrando um certo nível de choque.
Ele provavelmente não esperava que ela tomasse tanta coragem para retrucar duas vezes seguidas.
— Repita o que disse.
Nelson deu um passo em direção a ela. Sua figura alta emanava uma aura de poder inegável, envolvendo-a completamente e fazendo-a se sentir sufocada pela pressão.
Franciele sentiu um frio na espinha.
Logo se arrependeu de ter sido tão impulsiva.
Ela engoliu em seco, recuando:
— Sr. Sampaio, finja que eu não disse nada...

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