— Hoje é a celebração da vida da minha filha. Se você tem pendências, deve resolvê-las no privado. Tente transformar este evento em um escândalo midiático e eu garanto que você sofrerá as consequências.
A feição de Bruna estava completamente apática.
Plínio fechou as mãos em punhos duros, a frustração latente atravessando seu olhar.
Ele sequer sabia contar quantas vezes já levara cortes bruscos daquela boca.
O histórico era vasto.
Ainda assim, ser repudiado na frente da alta sociedade deixava sua sanidade arrebentada.
— Bruna... Estou te ofertando uma saída limpa. Se você atravessar aquelas portas comigo agora, prometo não revirar os escândalos do seu passado. Mas, se resolver bancar a heroína trágica ao lado deste fracassado, você assistirá à desintegração total do Grupo Braga!
O tom empregado foi mantido numa oitava baixíssima. Era incerto afirmar se a roda de convidados havia compreendido o teor do blefe.
As testemunhas do escândalo os observavam de forma ávida e enigmática.
O cenho de Bruna formou uma ruga profunda. Aonde, afinal, Plínio queria chegar com aqueles delírios?
Agindo no tempo exato, Uriel a posicionou para trás de si, encarando o rival como se ele fosse uma poeira no sapato.
— Sr. Lemos... O senhor não está subestimando perigosamente os alicerces do meu império?
No exato segundo após a tréplica mordaz, uma cacofonia de notificações de smartphones reverberou simultaneamente no salão inteiro.
Como num reflexo sincronizado, executivos sacaram seus celulares, e um coro de murmúrios atônitos substituiu a tensão instaurada.
— O Grupo Lemos está declarando falência sistêmica?!
— As ações estão derretendo num nível insano. É impossível frear a sangria em pregão aberto!
O que eram antes fofocas sobre um barraco virou um festival de olhares de pura pena direcionados a Plínio.
Escutando os sussurros de ruína, Plínio puxou o próprio celular, os dedos tremendo de incredulidade.
A sua mente refutava a veracidade daquelas machetes nas redes financeiras até que o SMS de seu conselheiro-chefe surgiu em caixa alta, confirmando a ruína irreversível.
Ao erguer a cabeça, o globo ocular do executivo estava tingido por uma vermelhidão insana de ódio.
— Essa fraude massiva... Você é o maldito responsável por isso, não é?!
Avançando que nem um cão raivoso, Plínio preparou-se para golpear o adversário no rosto.
Bruna fincou as unhas na manga do paletó de Uriel, tentando puxá-lo. O marido nem piscou, bloqueando seu trajeto.
Se Plínio Lemos abandonara seu ego descomunal para mendigar piedade, a repressão sobre o clã corporativo de fato fora irreversível e implacável.
Era o fundo do abismo, sem chance alguma de recorrer.
Contudo, se as esperanças dele envolviam mexer com o coração de Bruna, seus esforços colidiram contra um paredão de concreto armado.
A prepotência dele tentou ceifar Uriel num golpe sorrateiro, mas o veneno retornara na mesma moeda.
Tratava-se exclusivamente de karma autoinfligido; recorrer às cinzas do casamento estilhaçado era o cúmulo da humilhação.
Bruna sequer desviou o olhar para encarar o traste algemado.
Amordaçado pela guarda-costas do Grupo Braga, os oficiais o enquadraram por crime financeiro logo após o encerramento do espetáculo.
Enquanto marchava a contragosto, os xingamentos ácidos proferidos pela boca dele condenavam Bruna pelo ato covarde de relegar o próprio filho à vivência de uma criança renegada de atenção.
O evento cerimonial estava fadado ao término. Sob um decreto rápido e sucinto, Uriel convidou a classe financeira para se dispersar, e logo os holofotes foram esvaziados.
Com o salão limpo, o magnata voltou-se para a esposa, que permanecia reflexiva e calada.
— Você está furiosa comigo?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Meu Amor, Meu Traidor