Ponto de vista de Grace.
Alguém uma vez me disse que você nunca pode sentir verdadeiramente a dor de perder alguém que nunca conheceu. Mesmo que essa pessoa seja um de seus pais, mesmo que seja do seu próprio sangue, se ela morreu antes de você nascer, o luto jamais será o mesmo que o de perder alguém com quem você riu, conversou ou segurou nos braços. Isso não é crueldade. É apenas como as emoções funcionam. Você pode sentir empatia. Pode sentir raiva em nome dela. Pode até sentir tristeza pelo que ela passou. Mas talvez não sinta aquela dor profunda e oca.
Era exatamente assim que eu me sentia agora.
Eu me sentia mal pelo que meu pai e a mãe de Apollo tinham passado? Sim. Eu me sentia triste? Não exatamente.
O que eu sentia era raiva. Uma raiva pura e violenta que surgiu dentro de mim, tão densa que precisei desacelerar a respiração conscientemente apenas para me manter firme. Meus dedos se curvaram ao lado do corpo, as unhas cravando-se na palma da mão, porque cada pensamento na minha cabeça gritava a mesma coisa repetidas vezes: eu queria despedaçar aquela mulher.
A mulher que começou tudo isso. A mulher que machucou a Hannah. A mulher que assassinou meu pai e a mãe de Apollo.
Eu queria que ela sofresse.
A morte seria misericordiosa demais pelo que ela fez. Eu não me importava com o que a família Reed ou a família Jones pudessem ter feito a ela no passado para que chegasse a esse ponto, e não me importava com o que a motivou. Ela cruzou a linha no momento em que tirou vidas inocentes, no momento em que transformou pessoas em peças de um tabuleiro que julgava controlar.
Ela tirou pessoas de mim. E por isso, ela pagaria. Mesmo que eu tivesse que me tornar alguém terrível para fazer isso acontecer.
Minha mãe adotiva foi a primeira a desabar.
As pernas dela cederam sob o próprio peso, como se toda a força tivesse sido arrancada de seu corpo de uma só vez, e ela colapsou no chão com um baque surdo. Seu rosto ficou pálido igual ao de um fantasma, os lábios tremendo enquanto tentava processar tudo o que acabara de ouvir.
O pai de Apollo permanecia estático por perto, a postura rígida, a expressão distante, como se estivesse preso debaixo d'água e o mundo ao seu redor estivesse se movendo devagar demais. Seus olhos se arregalaram quando olhou para mim, a incredulidade claramente estampada em suas feições.
— G-Grace... — Gaguejou ele.
— O que você acabou de dizer? O que essa mulher está falando? Isso é algum tipo de piada?
Encontrei seu olhar com calma, meu rosto ilegível, meu coração frio de uma forma que surpreendeu até a mim mesma.
Balancei a cabeça.
— Não, Adam, tudo o que você ouviu é real. Isso não é uma piada. Sua esposa e meu pai não tinham um caso, e eles não cometeram suicídio. Foi uma armação, eles foram assassinados.
Adam cambaleou para trás como se tivesse levado um soco, as costas batendo contra a porta atrás dele. O som ecoou suavemente, mas ele não pareceu notar. Seu corpo inteiro parecia sem vida, esvaziado.
— Ahhhh—! — Minha mãe biológica soltou um lamento quebrado e agonizante, agarrando o peito como se seu coração estivesse sendo esmagado por dentro. Anos de ódio, anos de culpa, anos de ressentimento contra o homem que ela outrora amara, tudo se despedaçou em um piscar de olhos.
— Meu Deus... oh Deus! — Ela chorou.
— Jason... meu Jason!
Observei os dois em silêncio.
Eles provavelmente não conseguiam aceitar que as pessoas que amavam tinham sido manipuladas como peões e mortas sem piedade. Provavelmente não suportavam o pensamento de que falharam em protegê-las, de que tudo em que acreditaram por anos fora construído sobre uma mentira.
Adam balançou a cabeça freneticamente.
— I-Impossível. — Disse ele com a voz rouca.
— Isso é impossível, não tem como ela ter sido morta. Não tem como eu ter sido passado para trás desse jeito. Não tem como a minha esposa ter passado por algo assim.
Seu olhar estalou de volta para mim, desesperado.
— Certo, Grace? — Perguntou ele.
— Você deve estar errada.
Não respondi. Meu silêncio foi o bastante. Quando não obteve a resposta que queria, seus olhos se deslocaram para Apollo, que permanecera quieto o tempo todo, parado ali com uma expressão indecifrável.
— Filho — disse Adam com a voz trêmula —, diga-me que a Grace está errada. Eu sei que ela é inteligente, sei que é sagaz, mas ela deve estar equivocada sobre isso. Diga-me que ela está errada.
Apollo não respondeu. Conforme os segundos se arrastavam e Apollo continuava em silêncio, Adam voltou-se totalmente para ele.
— Apollo, por que você não está...
Ele interrompeu a frase no meio ao ver o rosto do filho.
Aquele olhar que dizia tudo sem uma única palavra.
A respiração de Adam engatou na garganta.
— Apollo...
Ergui meus olhos para Apollo.
Ele não estava prestando atenção em mais ninguém no aposento. Nem na minha mãe adotiva no chão, nem no pai congelado em descrença, nem nos meus irmãos parados por perto. Seus olhos estavam fixos em mim, como se eu fosse a única pessoa existente naquele espaço. O mundo poderia ter desabado ao nosso redor e ele ainda assim não teria desviado o olhar.
Mordi levemente o lábio inferior.
Eu sabia que ele já estava ciente de tudo isso. Soube no instante em que falei mais cedo e vi aquela expressão em seu rosto. O que eu não sabia, o que ainda não conseguia compreender totalmente, era o motivo de ele ter escondido. Apollo nunca fazia nada sem uma razão. Cada movimento seu, cada silêncio que mantinha, cada verdade que enterrava era calculada. Mas essa também era a falha dele. Ele planejava longe demais, pensava profundamente nos resultados e frequentemente esquecia o tamanho do estrago que o silêncio causava nas pessoas presas no meio do caminho.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Me Satisfaça, Daddy
História muito boa, me prendendo em casa capítulo.amando...