Ponto de vista de Grace.
A diretora estava certa.
Eu era nova demais naquela época. Aos sete anos, eu não entendia o que elas estavam dizendo, ou o quequelas palavras realmente significavam. Eu apenas sabia que alguém me queria, que alguém estava finalmente dizendo que seria minha mãe, e para uma criança como eu, isso era mais do que suficiente para silenciar cada aviso que meus instintos tentavam gritar.
Foi somente após aquele sonho com a Hannah que tudo voltou num estalo.
Eu ainda me surpreendia por ser capaz de lembrar de algo de tanto tempo atrás, algo enterrado tão fundo que eu sequer sabia que existia. Mas, por outro lado, algumas memórias nunca morrem. Não importa o quanto você tente esquecê-las, não importa o quanto queira que sumam, elas sempre darão um jeito de cavar o caminho de volta à superfície quando o momento for oportuno.
E agora, parada aqui, olhando para a mulher que um dia chamei de mãe, eu nem sabia mais o que deveria sentir.
Deveria me sentir ferida? Traída? Furiosa porque as duas pessoas que amei com todo o meu coração nunca me amaram nem um pouco, e só me viram como algo útil? Ou deveria me sentir estúpida por acreditar, durante anos, que se eu apenas tentasse mais, se me comportasse melhor, se me tornasse mais obediente, eles eventualmente me amariam?
Para ser sincera, eu não dava a mínima para o fato de os Jones serem minha família verdadeira. Não me importava em ser uma herdeira, eu não ligava sequer para o fato de ter sido trocada na maternidade.
Se ela tivesse me dito a verdade, se tivesse se sentado comigo e confessado o que fez, eu a teria perdoado. Eu realmente teria. O amor de uma mãe pode levá-la a cometer atos desesperados e terríveis, e eu teria compreendido isso. Teria tentado entendê-la. Mas ela nunca me viu como filha, nem por uma única vez.
Ela e o marido me trataram como uma serva, como algo que existia apenas para receber ordens, ser corrigida e moldada. Mesmo depois de ser adotada, nunca aprendi o que o amor deveria parecer. Eu não passava de uma ferramenta que eles podiam usar sempre que precisavam de algo. Forcei-me a me tornar o que queriam, silenciando meus próprios pensamentos, enterrando meu verdadeiro eu tão fundo que até eu esqueci quem deveria ser.
"Ah, Grace... você é uma mulher tão digna de pena."
O pensamento ecoou amargamente em minha mente.
Se eu pudesse voltar no tempo, abraçaria minha versão mais jovem tão forte que chegaria a doer. Aquela garotinha não merecia se perder apenas para sobreviver, ela não merecia implorar por amor de pessoas que nunca foram capazes de retribuí-lo.
Antes que eu pudesse me conter, uma única lágrima escorreu pela minha bochecha.
Inalei profundamente, enxuguei-a com as costas da mão e ergui a cabeça para encarar os olhos dela. Quando falei, minha voz estava rouca, baixa, mas firme:
— Esta será a última vez que derramo uma lágrima por vocês.
Ela congelou. Seu corpo ficou rígido, como se minhas palavras a tivessem bloqueado fisicamente no lugar. Dei as costas com calma e sentei-me na cadeira oposta à dela, cruzando as pernas vagarosamente. Quando voltei a olhá-la, não havia mais calor em meu semblante.
— Escolha uma opção: me conte o que sabe ou apodreça na cadeia. — Sentenciei secamente.
Ela engoliu em seco, o peito subindo e descendo rapidamente.
— O-o que eu sei? — Perguntou, a voz trêmula.
— Sim. — Assenti.
— Você costumava ser empregada da família Jones, não era?
Ela olhou para baixo, tremendo, incapaz de responder.
— Então você conhecia o senhor Jones... bem, já que sou filha dele, isso o torna meu pai. Você conhecia meu pai. Vou te fazer algumas perguntas e quero respostas honestas. — Me inclinei ligeiramente para trás, sem nunca desviar meus olhos do rosto dela.
— Sua vida está nas minhas mãos agora. Os Jones já sabem que sou a filha biológica deles. Se eu contar o que realmente aconteceu naquela época e como você e seu marido me trataram, duvido que as pessoas que vivem vindo aqui cobrar dinheiro continuem sendo seu maior problema.
Os olhos da minha mãe se arregalaram em puro pavor, os lábios tremendo enquanto me encarava como se estivesse diante de uma completa desconhecida.
— G-Grace...
Ignorei-a por completo.
Inclinei a cabeça de leve, estudando-a da mesma forma que se estuda um objeto frágil, e indaguei friamente:
— Minha primeira pergunta: meu pai realmente teve um caso com a mãe do Apollo?
Antes de virmos para cá, Eleanor e Wyatt tinham me contado tudo no carro. A princípio, fiquei chocada, mas quanto mais eu repassava a história na minha mente, mais errada ela parecia. Tudo parecia limpo e arrumado demais, como as peças de um jogo de tabuleiro cuidadosamente organizadas por alguém que sabia exatamente como os jogadores reagiriam. Não parecia um erro. Parecia planejado.
Eu tinha certeza de que Apollo havia notado isso também. Ele não era tolo. Devia saber que algo não batia.
Minha mãe baixou a cabeça, o pomo de adão saltando enquanto ela engolia em seco.
— S-sim, ele teve...
— Me diga a verdade, ou eu vou arrancá-la de você à força.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Me Satisfaça, Daddy
História muito boa, me prendendo em casa capítulo.amando...