Ponto de vista de Grace.
Flashback
— Grace, venha cá.
Uma das freiras me chamou, e eu imediatamente me virei e corri na direção dela, meus pés pequenos se moviam o mais rápido que podiam pelo chão frio. Eu tinha apenas sete anos, minhas pernas eram curtas e desajeitadas, mas não ousei diminuir o passo. Quando a alcancei, ela colocou uma pequena bandeja em minhas mãos; a porcelana parecia morna contra as minhas palmas.
— Leve isto para a sala da diretora. — Ordenou firmemente.
— E não derrame nada do café. Também não demore, você sabe que ela gosta do café quente.
Assenti rapidamente, segurando a bandeja com mais força.
— Sim. — Sussurrei.
A freira acenou de volta, já se afastando.
— Tudo bem. Vá. Não perca tempo.
Não hesitei por um segundo sequer. Comecei a caminhar em direção à sala da diretora, meus passos cuidadosos, porém apressados, meus olhos fixos na superfície trêmula do café. Se eu derramasse uma única gota, a diretora ficaria furiosa. Ela sempre ficava. Ela bateria na minha cabeça e me chamaria de criança amaldiçoada, me culpando por coisas que eu nem entendia. Eu não queria irritá-la novamente.
Enquanto avançava pelo corredor, passei por outras crianças que riam e brincavam juntas, suas vozes despreocupadas. As observei em silêncio, sentindo como se eu não pertencesse àquele mundo de forma alguma. Sempre que a diretora me via, seu rosto se contorcia em irritação, como se a minha mera existência tornasse a vida dela mais difícil. Eu não sabia o porquê, só sabia que precisava ser cautelosa.
Quando finalmente cheguei à porta da sala da diretora, diminuí o passo. Ajustei a bandeja em minhas mãos e ergui o braço para bater. Mas, justo quando meus nós dos dedos estavam prestes a tocar a madeira, ouvi uma voz irritada vinda lá de dentro.
— Mãe, por quantos anos você vai manter aquela garota no orfanato? — Avoz esbravejou.
— Eu já não te disse para fazer alguém adotá-la de uma vez?
Minha mão congelou no ar. Minha respiração engatou na garganta.
A voz da diretora respondeu, no mesmo tom colérico:
— Você fala como se fosse fácil! Você acha que é simples fazer alguém adotá-la? Especialmente alguém de um país distante. É difícil enviar aquela menina pra longe.
Pisquei, confusa. Elas estavam falando de alguém, eu não sabia o motivo, mas meus pés se recusaram a se mover. Em vez de bater ou ir embora, inclinei-me para mais perto, meu coração martelando conforme eu espiava lentamente pela porta entreaberta.
Dentro da sala estavam a diretora e outra mulher.
A mulher era bonita, com traços que me pareciam estranhamente familiares. Enquanto a fitava, percebi: ela se parecia muito com a diretora. Poderiam facilmente ser mãe e filha.
A mulher soltou um escarro de riso irritado.
— Então tente mais! Você quer que eles descubram que eu troquei as crianças? — Sua voz tremeu de pânico.
— Os Jones estão ficando desconfiados. Se eles fizerem um teste de dna e descobrirem, já vai ser ruim demais. Mas se descobrirem que eu troquei a minha filha pela filha real da família Jones, eles vão me matar. Eu sou apenas a empregada deles, mãe. Eles não vão ter piedade de mim.
Meu coração começou a bater tão alto que tive medo de que elas pudessem ouvir.
A diretora franziu o cenho profundamente e passou a mão pelos cabelos, sua expressão distorcida por fúria e medo enquanto esbravejava:
— Sua garota estúpida. Se você não fosse minha filha, eu já teria te colocado no olho da rua. Por que você me faz passar por algo assim? — Ela bateu com a mão na mesa.
— Você não apenas trocou as crianças, você trouxe a verdadeira herdeira dos Jones para o meu orfanato. Você tem alguma ideia do que isso significa? Os Jones não vão apenas arruinar você. Eles vão destruir a nossa família inteira.
Ela apontou em direção à porta.
— Vá embora. Leve aquela garota com você, não quero mais nada com você. Resolva essa bagunça sozinha.
A mulher estremeceu como se tivesse levado um golpe. Toda a cor sumiu de seu rosto, e de repente, ela caiu de joelhos. Balançou a cabeça desesperadamente e agarrou-se à perna da diretora, com os dedos trêmulos.
— Não, por favor. — Implorou, chorando.
— Não me abandone, mãe. Por favor. Você sabe que fiz tudo para que a minha filha pudesse ter uma vida melhor. Ela é sua neta. — Sua voz quebrou enquanto as lágrimas escorriam por seu rosto.
— Mesmo que os Jones descubram, aquela mulher não vai abandonar a minha filha. Ela é uma boa mãe. Ela ainda vai criá-la. Deixe a minha filha ter uma vida boa por uma vez. Ela merece.
Ela curvou a cabeça, soluçando.
— Eu farei qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Só... por favor, faça isso funcionar.
Fiquei ali parada do lado de fora da porta, a bandeja sacudindo violentamente em minhas mãos, o café balançando perigosamente perto da borda. Meu peito doía de uma forma que eu não compreendia, uma sensação de aperto esmagadora que tornava difícil respirar.
A diretora encarou a mulher por um longo momento, sua expressão ríspida suavizando-se lentamente conforme soltava um suspiro cansado. Ela se virou e sentou-se pesadamente em sua cadeira, levando uma das mãos à têmpora, como se estivesse com dor de cabeça. Por alguns segundos, não disse absolutamente nada, com os olhos desfocados, perdida em pensamentos profundos.
— Ainda existe uma maneira. — Disse ela finalmente.
A mulher retesou imediatamente, erguendo a cabeça enquanto a esperança brilhava em suas feições.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Me Satisfaça, Daddy
História muito boa, me prendendo em casa capítulo.amando...