Os dois se olharam curiosos por alguns instantes antes que Brito colocasse Rosa no chão e fosse embora.
"Tiazinha, trouxe ela pra cá, senão ela ia acabar sufocando de tédio."
Era raro ver Rosa sem sair pra brincar. Dona Luz e Seu Luz chegaram a pensar que ela tinha amadurecido, mas depois de alguns dias vendo-a trancada no quarto, cabisbaixa, perceberam que ela estava com o coração apertado.
Julieta logo entendeu que devia ser coisa do Cláudio: "Tá bom, pode ir, avisa pro seu irmão e pra sua cunhada que eu vou ficar com a Rosa mais uns dias."
Rosa não estava muito animada, mas a presença de Ismael e Alice tornava o ambiente mais alegre.
Alice era muito atenta e logo segurou o braço de Rosa: "Mana, o que tem de especial em Cidade Begônia? Leva a gente pra conhecer?"
Ismael, menos sensível e direto, resmungou: "Aquilo lá é tudo paisagem artificial, não tem muita graça."
Alice fez uma careta, fingindo irritação: "Só sabe estragar a diversão. Vai quem quer."
Depois fez mais uma careta, e Julieta aproveitou para reforçar: "Rosa, cuida do Ismael e da Alice pra mim, tá?"
Com alguma coisa pra fazer, Rosa se sentiu menos abatida e, forçando um sorriso, respondeu: "Eu conheço tudo por aqui, vamos dar uma volta?"
Ismael e Alice foram atrás de Rosa, enquanto Julieta ficou sozinha pintando, de vez em quando brincando com o cachorro.
Ela estava concentrada quando sentiu um abraço apertando sua cintura.
O perfume amadeirado familiar chegou ao seu nariz — era Hugo.
"Voltou já?"
Esses dias ele aparecia em casa com frequência, Julieta nem sabia direito se ele chegava a ir para a empresa.
"Senti saudade de você e das crianças, vim ver vocês."
Ele se agachou diante dela, encostando levemente o ouvido em sua barriga, até conversando com os bebês.
"Vocês dois, sejam boazinhos. Quando saírem, protejam a mamãe, hein? Sem travessuras, senão o papai vai puxar a orelha."
Julieta não sabia se ria ou reclamava, arqueou as sobrancelhas, fingindo bronca: "Não pode ameaçar as crianças."
"Tem que ameaçar sim, pra eles já aprenderem quem manda nessa casa. Se não obedecerem a mamãe, o papai não vai deixar barato."
Mesmo por cima da roupa ele sentia os movimentos dos bebês. Era uma sensação inédita, cheia de mistério; Hugo estava com os olhos marejados.
"Não, você está certa."
Mas Julieta não sabia de tudo.
Derrubar Laercio sozinho seria impossível, mas Hugo tinha Rodrigo Pacheco como aliado. Claro, ele não contou isso para Julieta, para não preocupá-la.
A influência por trás de Laercio era muito prejudicial para Rodrigo; os dois eram rivais ferrenhos em Cidade Sol. Só que, por ironia do destino, o genro querido de Laercio foi o primeiro a cair. Laercio queria se livrar dele, mas Vinicius sabia demais.
Ninguém perderia uma chance dessas. Hugo, ao ajudar Rodrigo indiretamente, acabou formando uma aliança.
"Deixa pra lá, eu não quero saber dessas coisas de vocês, homens."
Hugo olhou para o retrato quase pronto na tela: "De novo eu?"
Ela parecia viciada em retratá-lo.
"Uhum, acho que você tem um rosto interessante. Olha, coloquei vários quadros na internet, já tenho muitas encomendas!"
Julieta, orgulhosa, mostrou pra Hugo a loja virtual que acabara de abrir. O pouco de doçura que restava no rosto de Hugo sumiu na hora.

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