Ele ainda se lembrava de que, certa vez, ao passar pelo escritório do tio, havia pedido aquilo para ele. Mas nunca teve resposta.
Hoje, Rui o agarrou pela gola da camisa, obrigou-o a ficar debaixo daquele carro de corrida em miniatura e lhe deu uma surra daquelas.
Cláudio se contorcia de dor com cada chicotada.
"Você sabe por que nunca deixei você entrar neste escritório desde pequeno? Olhe bem para este modelo de carro de corrida, ainda se lembra dele?"
Os cantos dos lábios de Cláudio se ergueram, formando um sorriso meio torto pela dor ardente das chicotadas.
Mesmo assim, ele continuou com seu jeito irreverente.
"Você sabe que eu perdi a memória. Por que está me dizendo tudo isso?"
O rosto de Rui estava mais sombrio do que nunca.
"É justamente porque você perdeu a memória que quero fazê-lo lembrar agora. Este modelo de carro fui eu que comprei. Sabe onde está o original? Era a única lembrança que a mãe de Julieta pôde me deixar. Você pegou e deu para a Julieta."
E daí?
Dessa vez, Cláudio não se atreveu a perguntar.
Foi a primeira vez que o tio lhe bateu duas vezes. Desde pequeno, ele finalmente soube o que era dor de verdade.
Rui jogou o chicote aos seus pés.
"Se ousar brincar de novo com meus sentimentos, não venha me falar de laços de família."
Rui estava tão sério que Cláudio até encolheu o pescoço, um pouco assustado.
Então, esse velho finalmente aprendeu a ficar bravo?
Cláudio foi obrigado a passar a noite ajoelhado sob o modelo do carro de corrida no escritório, e, quando Rui foi vê-lo na manhã seguinte, encontrou-o dormindo profundamente no chão.
O olhar de Rui escureceu um pouco, mas no fim pediu para um empregado pegar uma manta e cobri-lo.
Depois mandou que o levassem direto do escritório para o banheiro, para dormir lá.
Rui ficou parado diante do modelo do carro, sozinho com suas lembranças de Daisy — provavelmente ele era o único que ainda se recordava.
E aquele homem, que possuía a deusa de seu coração, estava preso para sempre em um sono profundo.
Ele ficou em silêncio por muito tempo, até que recebeu uma ligação no celular.
"E então?"
"Diretor Cardoso, desculpe, mas de acordo com o conhecimento atual da medicina, ainda não há nenhuma forma de melhorar o quadro do Diretor Reis."
Com eles ali, ela não precisava ficar se preocupando tanto com a família.
"A mamãe foi acompanhar o bisavô, e a saúde da tia-avó não anda muito bem. Daqui a alguns dias, ela terá que voar para uma clínica do outro lado do oceano."
Enquanto os três conversavam, Brito Luz trouxe Rosa.
Rosa, nesses dias, andava inquieta por causa de Cláudio.
Ir até a tia poderia ajudá-la a distrair a cabeça. Assim que chegou à porta, o cachorrinho branco já veio correndo e se enroscou em seus pés; Rosa o pegou no colo e subiu para abraçar Julieta, e acabou encontrando Ismael e Alice.
Brito vinha logo atrás, e os irmãos se depararam com o trio.
Brito logo reconheceu Alice Reis, e Alice também olhou para ele.
Os dois se observaram, curiosos: "O cunhado parece até mais jovem."
Brito também ficou surpreso: "Duas tias tão novas assim?"
Ismael Reis respondeu friamente: "Não é a primeira vez que vocês se veem, parem de fingir que foi amor à primeira vista."
Brito então se lembrou: da última vez que esteve em Cidade Perene, também viu uma garota muito parecida com a tia. Na época, não prestou muita atenção em Alice.
Hoje, de perto, ela parecia uma pequena versão de Julieta.

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