O que passou, passou?
Parar de insistir nisso?-
Clara tremia de corpo inteiro, seu coração doía como se estivesse sendo rasgado vivo, virando carne moída.
Com os lábios tremendo, ela mal conseguia formar palavras: — En... Então, você quer dizer... eu apenas fiquei cega, e ela... se ajoelhou por três horas e teve uma miocardite, é isso?
Enzo evitou o olhar de Clara por instinto.
— Tsk.
Valentina, nos braços dele, estalou a língua em deboche.
Ela ergueu o rosto bonito e cruel por cima do ombro de Enzo, olhando diretamente para Clara, e curvou os lábios vermelhos: — O que ele quer dizer é que o fato de eu ter atropelado e cegado você, no fundo, não foi nada demais.
— Afinal...
— Aquilo foi só uma aposta entre mim e ele.
— Naquela época, o seu querido Enzo ficou com pena, disse que você era o limite dele, e que se eu encostasse em você de novo, ele me mataria.
Valentina deu uma risadinha: — Como eu não acreditei, apostei com ele: se eu te atropelasse, o que ia acontecer primeiro? Ele me matar ou se apaixonar por mim.
Ela olhou para as certidões de casamento na mesa: — E agora, você viu o resultado.
Um zumbido soou no ouvido de Clara, como se um gongo tivesse estourado em seu crânio.
A garganta travou, um gosto de sangue subiu, queimando o esôfago.
Ela cerrou os dentes e engoliu o sangue de volta à força.
Aposta?
Ela se lembrava de que, na época, Enzo acariciou seus olhos cegos e disse: 'Não posso cortar relações com a família dela de uma vez', 'Não vou deixá-la em paz', 'Foi a última vez'.
Um frio que gelava os ossos muito mais do que a umidade daquele porão, e trazia mais desespero do que a noite escura depois da cegueira.
A voz estridente de Valentina soou novamente.
— Clara, você consegue ver, não é? E aí, gostou da surpresa que a gente preparou para você agora que sua visão voltou?
— Ah, é. Tenho mais algumas surpresas para você.
— Sabe por que aquele seu pai viciado obrigou você a assinar o acordo de perdão? Porque foi o Enzo quem foi falar com ele.
— Durante este ano em que você passou se tratando no hospital, o Enzo e eu nos apaixonamos com a convivência.
— E sabe por que o Enzo não foi te visitar nestes últimos três meses? Porque eu peguei um resfriado, e ele ficou três meses cuidando de mim, com pena.
Valentina admirava o rosto pálido de Clara e abriu os lábios vermelhos, cheia de maldade: — E a maior surpresa de todas para o final... Querida, o rim da sua avó não foi o Enzo quem doou. Uma pessoa apareceu dizendo que o rim era perfeito para o transplante. O Enzo foi apenas o comprador que pagou por ele e ainda fez você ficar agradecida pelo resto da vida.
Clara ouvia aquelas palavras entrarem nos ouvidos como facas cegas em brasa, revirando as entranhas.

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