A voz de Clara era aguda.
— Você!
Vicente engasgou e logo explodiu de raiva: — Clara! Não se esqueça de quem tirou você daquele inferno de orfanato e de quem a criou! Depois de todo esse tempo, você vai ser uma mal-agradecida? Sabe quanto dinheiro eu gastei para te criar? Sem mim você estaria morta! Você me deve a sua vida!
A mão de Clara tremia com força. Ela mal conseguia segurar o celular.
Sim, ela era órfã.
A diretora do orfanato dissera que ela foi deixada na porta aos seis anos de idade ardendo em febre e sem se lembrar de nada do seu passado.
Foram Vicente e a então esposa quem a adotaram.
Em menos de dois anos, a esposa fugiu por não suportar o vício em apostas e a agressividade de Vicente.
Desde então, Vicente apenas batia nela ou a xingava.
Foi a avó quem ajudou a criá-la passo a passo.
Depois, a avó adoeceu e precisou do transplante de rim...
— Tudo bem, de qualquer maneira o Enzo não te quer mais. Quero ver você ter dinheiro para manter a sua avó viva!
Ao notar o silêncio dela, Vicente suavizou o tom: — Pense bem. Se você ficar com aquele figurão, usar palavras doces e tratá-lo bem, se sobrar um trocado dele já vai ser suficiente para ajudar a sua avó... É bem melhor do que ficar esperando a morte agora, não é?
Ele suspirou, fingindo preocupação: — Esquece, eu não vou te forçar. Vou lá falar com a sua avó. Vamos ver se ela aguenta o choque de saber que o filho vai ser picado para dar aos cachorros e que a neta favorita não levantou um dedo para ajudar...
— Eu aceito.
Clara fechou os olhos.
— Sério? Essa é a boa filha do Vicente! Não gastei meu dinheiro à toa no passado!
Vicente vibrou na hora, com a voz mudando de tom.
— Mas há uma condição.
Clara abriu os olhos, que exibiam apenas frieza: — Amanhã vamos ao Cartório de Registro Civil assinar o cancelamento da adoção. A partir de lá, eu não te deverei mais nada.
— Como? Cancelar a adoção? Você ficou louca?
Vicente gritou.
Ele não esperava que aquela filha, com quem ele sempre deitou e rolou, fosse pedir o fim da adoção.
Clara falou em um tom calmo: — A escolha é sua. Você cancela a adoção e eu salvo a sua pele desta vez. Ou eu não aceito o acordo, e você fica esperando para virar comida de cachorro.
No alto-falante do celular, soou uma voz educada e sem pressa: — Meu Presidente, eu acabei de escutar três horas de interrogatório da diretoria no seu lugar. O chá esfriou três vezes e eu nem tive tempo de beber.
O homem não respondeu àquilo, apenas disse em tom neutro: — Aquele Cálice Imperial da Dinastia Ming. Você ficou pensando nele há meio ano.
— Chego em dez minutos.
— E, a propósito, que tipo de 'salvador' você quer que eu seja? Do tipo carinhoso que ajuda no momento de necessidade ou... algum outro estilo?
— Você decide.
O homem fez uma pausa e completou: — Não exagere na encenação.
— Entendido.
A voz do outro lado disse: — Indo o mais rápido possível.
O homem não disse mais nada e encerrou a chamada.
Ele olhou para baixo, fitando a própria camisa totalmente preta.
Amanhã, parecia que... ele deveria vestir uma branca?

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