Assim que Samuel Serra e os outros saíram, Francisco Pereira sentiu um alívio imediato no ambiente.
Com os olhos baixos, girando a taça de vinho na mão, murmurou:
— Vão indo. Eu fico mais um pouco.
Jerônimo Dourado soltou um leve assobio de desdém.
— O que foi, vai ficar aqui curtindo a tristeza sozinho?
— Se gosta mesmo, por que não vai atrás dela?
Vânia Carvalho não era como aquelas mulheres sem graça, tampouco uma daquelas “princesas” enjauladas que ele costumava manter por perto.
Ele tentou explicar, mas ela não quis ouvir uma palavra.
— Ei, a esposa do Samuel não é próxima da Vânia? Por que não pediu pra ela dar uma força?
Francisco Pereira esboçou um sorriso irônico.
— Não viu o olhar de desdém da esposa do nosso grande senhor Samuel pra mim?
Se não saiu falando mal dele, já estava mais que bom.
Jerônimo Dourado deu de ombros.
— Beleza, então fica aí.
Com seguranças à volta, não havia preocupação com a segurança.
Na saída, Jerônimo Dourado ainda deu um tapinha no ombro de Francisco Pereira:
— No fim das contas, todos temos que procurar um casamento à nossa altura. Se você não pensa em casar com ela, melhor terminar logo. Isso é melhor tanto pra você quanto pra ela.
— Tchau!
Quando Josué Rodrigues e Jerônimo Dourado partiram, Francisco Pereira ficou olhando para a taça, com o olhar perdido.
Casamento à altura, era isso?
Entre todos os amigos, o único que podia se dar ao luxo de ignorar convenções e casar por pura vontade era Samuel Serra.
–
Laura Rocha pensou que estavam voltando à casa principal, mas Seu Cassio dirigiu até o casarão antigo.
— Samuel, vamos dormir na casa antiga hoje?
Samuel Serra balançou a cabeça.
— Não, mas precisamos passar lá pra acertar umas contas.
Laura Rocha ficou confusa.
— Boba — o homem sorriu e apertou de leve o lóbulo da orelha dela — Você achou mesmo que com aqueles dois baldes d’água tudo estava resolvido?
Ele não achava, mas alguém achava.
Tiago Serra, irritado, voltou dirigindo para o casarão. A ideia inicial era ir para a casa onde moravam como casal, mas hoje não queria dividir o quarto com Luara Ribeiro. Preferia o casarão antigo, assim podia ir dormir no escritório sem criar problemas.
— Não adianta só pensar em carreira. O Tiago trabalha demais, você precisa cuidar melhor dele.
De mãe para sogra, as desavenças nunca tinham fim, mesmo sendo mãe de criação.
Luara Ribeiro engoliu o orgulho.
— Sim, mãe, entendi.
Subiu para o quarto visivelmente abalada, foi se lavar e refletir sobre o dia desastroso que tivera — duas broncas, e o ânimo no chão.
Quando saiu do banho, o quarto estava vazio, o marido não estava lá.
Seus olhos ficaram sombrios.
A porta do escritório foi aberta em silêncio.
Tiago Serra, com a mão no mouse, respondeu com impaciência:
— Por que ainda não foi dormir?
— Tiago, você não vai voltar pro quarto hoje?
Ele encarou a tela do notebook.
— Tenho umas coisas pra resolver. Vai descansar. Está tarde, melhor evitar te atrapalhar, mais tarde durmo no quarto de hóspedes.
Afinal, já fazia dias que não tinham intimidade como casal.

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