Contanto que seu jovem mestre não fosse agredido, ele não se importava com o que lhe acontecesse.
— Obrigado, patrão — disse José. Em seguida, virou-se para Eduardo: — Tio Eduardo, pode buscar o chicote. Estou pronto.
Eduardo estava em uma encruzilhada dolorosa. José sempre acompanhara Afonso. Os dois eram unidos como irmãos de sangue. Bater em José não seria muito diferente de bater em Afonso. José percebeu a hesitação e tentou confortá-lo.
— Tio Eduardo, não tem problema. Eu tenho o couro grosso. Pode bater.
Ele piscou para Eduardo discretamente. Se demorassem demais, o patrão poderia se arrepender e o jovem mestre acabaria apanhando de novo. Sem alternativa, Eduardo foi buscar o chicote de vime. Retornou pouco depois. Mas o velho mordomo tentou um último apelo.
— Patrão...
— Eduardo! — o tom de Henrique despencou assustadoramente. — Ou será que você prefere ser o chefe desta casa?
As pernas de Eduardo fraquejaram imediatamente.
— Patrão! De jeito nenhum...
Sem mais delongas, José caiu de joelhos no chão com um baque surdo.
— Tio Eduardo, bata.
Eduardo trincou os dentes. Ele teria que bater. Não havia outra saída. Mas quando o chicote desceu, José não sentiu dor alguma. Foi então que percebeu que Afonso havia se jogado sobre ele, recebendo o golpe nas próprias costas. José entrou em pânico, o coração despedaçando.
— Jovem mestre! O que está fazendo? Sai daqui!
Afonso, com uma expressão gélida e inabalável, ajoelhou-se.
— Eu recebo por ele.
— Não! Jovem mestre! O que o senhor está dizendo?!
— Pai, eu recebo por ele.
Henrique hesitou por um segundo. Aquele "pai" o pegou totalmente de surpresa. Nos últimos três anos, era raríssimo ouvir Afonso chamá-lo de pai.
— Não, não, não! De jeito nenhum! — José gritava desesperado. — Patrão! O erro foi meu, eu mesmo assumo! Não precisa o jovem mestre sofrer por mim! Jovem mestre, por favor, me escuta! Eu tenho o couro grosso, umas chicotadas não vão me fazer mal!
A voz de Afonso soou serena e firme, com uma ponta de súplica transparecendo em seu olhar calmo.
Afonso assentiu e tirou a camisa, expondo os ombros e as costas firmes e musculosas ao ar gélido do salão. Eduardo engoliu a própria dor e desceu o braço, balançando o chicote.
— Vinte golpes. Nem um a menos — decretou Henrique.
Eduardo controlava a força de cada golpe com o máximo cuidado, morrendo de medo de que Henrique percebesse. Mas quem era Henrique Xavier? Ele era um homem que dominava Porto das Estrelas há décadas, uma figura de poder temida tanto pela luz quanto pelas sombras. Acharam mesmo que ele não notaria um truquezinho barato daqueles?
Henrique arrancou o chicote das mãos de Eduardo e assumiu o castigo ele mesmo. Cada golpe parecia carregado com a intenção de arrancar a vida de Afonso. Afonso mantinha os olhos fechados, os punhos cerrados e os dentes cravados uns nos outros, suportando a dor excruciante em silêncio.
Décima terceira chicotada. O vime já estava manchado de sangue. José batia a testa no chão, chorando convulsivamente.
— Patrão, eu imploro, pare de bater nele! Por favor!
Eduardo também estava em agonia, sem saber o que fazer.
— Patrão, tenha piedade, pela memória da patroa.
Mas dessa vez, o apelo foi inútil. Henrique não parou. Vinte golpes. Nem um a menos.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Emprestar o Meu Marido pra Ter um Bebê
Como consigo os capítulos completos?...
como consigo ler todos os capitulos...