Na obstetrícia, acostumado com cenas assim, o médico já havia dito o que podia.
Ele balançou a cabeça, resignado. Ao se virar para sair, ainda deixou um aviso:
— Lembre-se: corpo e mente de gestante são frágeis. Não aguentam tormentos. Da próxima vez, talvez vocês não tenham tanta sorte.
Marcelo ficou parado. Cada palavra era como uma lâmina cravada no peito.
Ele baixou a cabeça, olhando o punho da camisa manchado de sangue, e apertou os dedos sem perceber.
Dentro do quarto, Amália abriu os olhos devagar. Viu o teto branco e sentiu o cheiro forte de desinfetante.
Instintivamente, tocou o baixo-ventre. Só quando confirmou que ainda havia alguma elevação — e que não sentia nada além do cansaço — é que suspirou, aliviada.
Mas, ao virar o rosto, encontrou o olhar sombrio de Marcelo.
Marcelo havia levado uma bronca do médico e segurava a raiva, esperando apenas Amália acordar para acertar as contas.
Ele estava ao lado da cama, já sem o paletó. Os punhos da camisa tinham manchas de sangue seco, e ele exalava uma frieza quase palpável.
— Acordou?
A voz era grave, carregada de raiva contida.
Os dedos de Amália se encolheram. Ela tentou manter a compostura.
— Marcelo… eu…
Marcelo soltou uma risada fria, sem dar a ela espaço para explicar. Ele se inclinou, pressionando-a com o próprio corpo.
— Amália! Você não disse que tinha tomado o remédio? Como engravidou, então?
De fato, ele nunca deveria ter acreditado nessa mulher cheia de mentiras.
O olhar dele era afiado como faca, como se pudesse perfurá-la.
O coração de Amália tremeu. Mas ela se recompôs e assumiu o papel de vítima.
— Eu… eu tomei… mas o remédio não é cem por cento eficaz…
— Você acha que vai me prender com uma criança?
Ele soltou uma risada curta.
— Nem em sonho.
O rosto de Amália estava pálido; o peito subia e descia rápido.
A decisão dele era firme demais. Amália sentiu medo.
Naquele momento, ela não se importou com mais nada. Aproveitando o instante em que Marcelo a soltou, ela tateou o celular sob o travesseiro, tentando ligar para Gustavo sem chamar atenção.
As famílias Oliveira e Costa estavam em plena cooperação. Se Gustavo soubesse da gravidez — e que Marcelo queria que ela abortasse — jamais perdoaria Marcelo.
Marcelo não percebeu o pequeno movimento. Apenas a encarou, frio.
— Vou mandar resolver a cirurgia o quanto antes. É melhor você cooperar.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Despertar Depois dos 1460 dias