— Amanhã cedo, leve Décio com você.
Ele era um homem à beira da morte, não havia motivo para prender dois jovens com a vida inteira pela frente ao seu lado, desperdiçando tempo.
Aeliana estava à sua frente, com as pontas dos dedos ainda doloridas do treino, e franziu a testa.
— Não.
Seu tom era firme.
— Décio tem que ficar com o senhor.
Wallace levantou a cabeça para "olhá-la", as órbitas vazias pareciam profundas sob o pôr do sol.
— Dizem que quem te ensina vira quase um pai pra vida toda.
— Eu te ensinei por um tempo, não deveria me ouvir?
Aeliana apertou os lábios.
Mesmo com Wallace usando isso para pressioná-la, sua atitude permaneceu inabalável.
— Décio deve ficar ao seu lado.
— No seu estado atual, você não pode ficar sozinho.
Wallace zombou, mas o tom suavizou.
— Décio será mais útil com você.
— Um cego e aleijado como eu, que já viveu a maior parte da vida, precisa de cuidados?
Aeliana não se moveu, apenas o observou em silêncio.
— Sr. Wallace, o senhor é...
Ela parou, sem conseguir perguntar.
Queria perguntar se ele era filho de Flávia.
Queria perguntar o que ele havia sofrido todos esses anos.
E principalmente, por que preferia esperar a morte sozinho a lutar mais uma vez.
Aeliana sabia que já tinha a resposta mesmo sem perguntar.
Aeliana e Wallace "trocaram olhares", tudo entendido sem palavras.
Por fim, Aeliana não concordou em levar Décio e disse suavemente a Wallace.
— Não vou levar o Décio.
— Eu voltarei.
— Combinamos que eu iria curá-lo, eu sempre cumpro minhas promessas. Se você não quer cumprir a sua, problema seu, mas eu!
— Com certeza vou te curar!
Wallace sorriu, as cicatrizes pareciam ainda mais marcadas na luz do crepúsculo.
Na manhã seguinte, Aeliana acordou bem cedo.
Antes de sair, olhou uma última vez para a ameixeira no quintal.
Décio carregava a mala atrás dela, com os olhos vermelhos.
Com a partida de Aeliana, não se sabia quando ela voltaria.
E a situação de Wallace estava piorando.
Décio estava preocupado.
Tinha medo de que, quando Aeliana voltasse...
Talvez Wallace...
— Dra. Oliveira, o Sr. Wallace, ele...
Décio sabia que Aeliana não tinha desistido de pesquisar o veneno, mas não sabia até onde ela tinha avançado.
Aeliana sorriu para o inquieto Décio, consolando-o.
— Fique tranquilo, não pesquisei em vão esse tempo todo.
— Antes da minha próxima volta, o Sr. Wallace não terá problemas.
Ela apertou a chave na mão, com voz leve, mas firme.
— Eu voltarei.

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