Décio fez uma pausa e sussurrou novamente.
— Mas uma vez, acordei de madrugada para ir ao banheiro e o vi no pátio... segurando uma faca.
Aeliana parou o que estava fazendo.
— Faca?
Décio assentiu, ainda com medo.
— Sim, daquelas adagas bem finas. Ele conseguia fazer malabarismos de olhos fechados, zunindo pra lá e pra cá, era assustador...
Os olhos de Aeliana brilharam, mas ela não perguntou mais nada.
Tarde da noite, no quarto.
Aeliana jantou, tomou banho e, assim que encostou no travesseiro, sua consciência mergulhou rapidamente na escuridão.
O tratamento durante o dia, o treino de defesa pessoal e o estudo do diário de Flávia consumiram quase toda a sua energia.
Aeliana dormia profundamente, tanto que nem ouviu o celular vibrar várias vezes na cabeceira.
Só na quinta vibração ela abriu os olhos, meio tonta, tateou o celular e atendeu com a voz carregada de sono.
— ...Alô?
A voz rouca de Aeliana denunciava que acabara de acordar de um sonho.
Do outro lado, a voz grave de Jocelino soou.
— Adormeceu?
Aeliana esfregou os olhos e olhou a hora.
Já era uma da manhã.
Aeliana levantou-se surpresa e olhou pela janela.
O céu lá fora estava completamente escuro.
— Hum...
Aeliana deitou-se novamente na cama, respondendo de forma vaga, com a voz suave e sonolenta explicando a Jocelino.
— Estava muito cansada hoje, acabei dormindo.
— Esqueci que tinha que te ligar hoje.
Antes de se mudar para a casa nova, Aeliana havia combinado com Jocelino que ligariam um para o outro todos os dias.
Aeliana estava tão cansada hoje.
Que acabou esquecendo disso.
Jocelino ficou em silêncio por um instante, não pareceu bravo, e seu tom suavizou involuntariamente.
Ela não respondeu, apenas enterrou o rosto no travesseiro, as pontas das orelhas ficando vermelhas discretamente.
Do outro lado da linha, Jocelino parecia imaginar como ela estava naquele momento, e um sorriso surgiu em seus olhos.
— Está se acostumando com a casa nova? — perguntou ele.
Aeliana fez um "hum".
— É muito boa, o ambiente é muito mais silencioso que na favela.
Ela fez uma pausa e acrescentou.
— Além disso, meu contratante, Sr. Wallace, e o Décio também se mudaram para cá comigo.
Jocelino ergueu uma sobrancelha.
— Eles também foram? Aquele seu contratante concordou?
Aeliana já havia contado por alto a Jocelino sobre Wallace, então Jocelino sabia que Wallace não era uma pessoa com saúde plena.
Geralmente, pessoas que sofreram o que Wallace sofreu não gostam muito de ir morar na casa dos outros.
Jocelino realmente não esperava por isso.
Aeliana riu levemente e contou a Jocelino mais ou menos o que aconteceu.
— Embora tenha dado um pouco de trabalho, no fim consegui convencê-lo.

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