A fúria recuou rapidamente como a maré, deixando para trás apenas uma ruína e... um leve traço de arrependimento tardio.
Na verdade, no momento em que aquelas palavras saíram de sua boca, Leonardo já estava arrependido, mas o excesso de raiva havia feito com que ele perdesse todo o controle.
Ele ficou parado, o peito subindo e descendo com força, enquanto sua mente repetia incontrolavelmente a maneira como sua filha havia olhado para ele momentos antes.
O que ele... o que ele tinha acabado de dizer?
Ele nunca perdia o controle de suas emoções dessa forma, o que havia acontecido com ele hoje?
Ainda por cima, proferiu palavras tão cruéis.
Leonardo massageou as têmporas latejantes com frustração e voltou a se sentar na cadeira, sentindo o corpo pesado, como se tivesse sido drenado de toda a sua energia.
Ele pegara pesado demais nas palavras que dissera...
Amália era o único sangue seu que restava no mundo, a memória viva de sua falecida esposa; é claro que ele amava a filha.
No passado, quando foi forçado a trocar Amália por outra criança e não pôde vê-la crescer ao seu lado, Leonardo sentiu uma culpa genuína.
Mas... ele não tinha alternativa!
Sua situação atual era precária. Aquele garoto, o Jocelino, havia usado não sei que meios para descobrir o seu esconderijo na fronteira e lhe desferiu um golpe avassalador!
A atitude de 'O Patrono' era ambígua; ele poderia descartá-lo a qualquer momento.
Ele precisava dos canais e do dinheiro de Ian Guedes; precisava manter esse aliado firme.
Qual seria o problema em casar Amália com Ian?
Ian tinha riqueza e influência, e parecia gostar de Amália. Era infinitamente melhor do que aquele Marcelo Costa!
E quanto à família Costa?
Além de fazer Amália sofrer, o que mais poderiam lhe oferecer?
Ele só queria o melhor para ela!
Por que ela simplesmente não entendia suas boas intenções?
Por que insistia em contrariá-lo, obcecada por aquele Marcelo Costa que a tratava como um fardo inútil?
Quanto mais Leonardo pensava nisso, mais se irritava. Mas dentro dessa irritação também se misturava a decepção pela teimosia infantil da filha e o remorso por ter perdido o controle de suas palavras.

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