Muito menos com o outro lado da linha estranhamente silencioso.
Não havia som de trânsito, nem vozes ao fundo, e sequer se ouvia uma respiração mais pesada. Era um silêncio incomum.
Definitivamente, aquele não era o tipo de ambiente em que alguém pudesse relaxar e falar à vontade.
Raimundo Barreiros era um homem que havia passado anos vivendo no limite, caminhando na tênue linha entre o crime e a lei. Sua percepção do perigo e sua atenção aos detalhes já estavam gravadas nos ossos.
Bastou ouvir a voz de Aeliana Oliveira e os sons ao redor para que ele chegasse imediatamente a uma conclusão.
Aeliana estava em apuros.
Se ela estava ligando, certamente era por um motivo extremamente urgente e importante.
Por isso, ele não fez as saudações habituais nem perguntou o motivo da ligação como costumava fazer. Foi direto ao ponto, com a voz subitamente mais grave.
— Dra. Ana?
— O que aconteceu? Você está em perigo?
— Sr. Gildo, sou eu.
— Por enquanto, estou segura. O motivo de eu ligar hoje é que a situação é realmente urgente.
A voz de Aeliana estava muito baixa, falava rápido, mas carregava um tom quase imperceptível de súplica e seriedade.
— Desculpe incomodar a esta hora, mas tenho um assunto muito urgente e preciso da sua ajuda.
Sem perder tempo, Aeliana foi direto ao ponto, organizando rapidamente as ideias para explicar a Raimundo a situação de Jocelino Barreto.
— Uma pessoa... extremamente importante para mim foi detida pela polícia, e a situação parece bem complicada no momento.
— Contratamos um advogado para intervir, mas o pedido de fiança foi negado. Disseram que o caso é grave e que há risco de fuga.
— Sr. Gildo, sei que você conhece muita gente na Vila das Nuvens Cinzentas e tem muitos contatos. Não sei se... seria incômodo pedir que você sondasse qual é a real situação.
Sr. Porto, delegado sênior da divisão de homicídios da Delegacia de Polícia Metropolitana Atlântica, na Vila das Nuvens Cinzentas.
O Sr. Porto era alguns anos mais velho que Raimundo. Era um homem astuto, eficiente e com grande habilidade para solucionar casos, mas também não era do tipo que se mantinha intocável e alheio aos acordos do mundo real.
Anos atrás, quando Raimundo ainda brigava nas ruas e a Thelxinoe do Litoral sofria pressão de outras facções, o acaso fez com que ele ajudasse o Sr. Porto a resolver um problema complicado envolvendo a família dele. Depois disso, ambos mantiveram um acordo silencioso de nunca comentar o assunto, mas a dívida de gratidão e a confiança construída a partir dali permaneceram.
Ao longo dos anos, a Thelxinoe do Litoral passou por uma transição. Raimundo tentou legalizar parte dos negócios, o que resultou em diversas “colaborações” com o Sr. Porto.
Sondar a situação e repassar um recado não deveria ser problema.
— Uma pessoa muito importante...
Raimundo repetiu, em tom cauteloso:
— Entendi. Sra. Oliveira, você salvou a vida da minha mãe, e eu nunca esqueci disso. Vou fazer o possível para ajudar.

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