Aeliana agiu com muito tato e tomou a iniciativa:
— Sofia, fique aqui cuidando da senhorita. Eu vou descer para buscar um pouco de água, perguntar ao médico se há mais alguma recomendação e aproveitar para ver se consigo providenciar um lanche leve. Quando ela acordar, é provável que sinta fome.
Sofia estava com a cabeça a mil e, ao ouvir isso, não pensou muito. Apenas fez um gesto com a mão:
— Vai e volta rápido.
— Certo.
Aeliana concordou e saiu do quarto em silêncio, sem fazer barulho.
Ela caminhou alguns passos pelo corredor da ala VIP, enquanto o olhar percorria, de forma aparentemente casual, as portas fechadas dos dois lados e o posto de enfermagem, onde algumas luzes permaneciam acesas.
No fim do corredor, além de dois pequenos depósitos, havia uma discreta porta corta-fogo, pintada de verde-escuro, com uma placa que dizia: “Saída de Emergência — Não Obstrua”.
A porta estava entreaberta, revelando uma fresta estreita que dava para o vão da escada, um espaço normalmente usado apenas em evacuações de emergência.
A iluminação ali era precária, a ventilação ruim, e o local ficava afastado dos quartos principais e da área de circulação de pessoas. No dia a dia, tirando a equipe de limpeza, quase ninguém passava por ali, o que fazia daquele o canto mais escondido e menos observado de todo o andar.
Depois de confirmar que ninguém a seguia e que ninguém olhava em sua direção, Aeliana não hesitou nem por um segundo e mudou de rota.
Seu vulto se moveu depressa, como uma gota d’água se misturando à sombra, deslizando com rapidez e silêncio para trás da porta corta-fogo entreaberta, ocultando-se completamente na penumbra da entrada da escadaria.
O espaço atrás da porta era ainda mais estreito e escuro do que parecia. Havia apenas uma lâmpada econômica no teto, emitindo uma luz pálida e fraca, refletida nos degraus e nas paredes frias de concreto.
O ar estava impregnado por uma mistura sutil de poeira e desinfetante hospitalar.
Bem ali, sob aquela luz fraca, uma figura esguia, vestindo o uniforme azul padrão da equipe de limpeza do hospital, com máscara e touca, estava encostada em silêncio contra a parede.
Ao ouvir o barulho, ela ergueu a cabeça de imediato, e seus olhos brilhantes sob a aba da touca encontraram o olhar de Aeliana.
Para uma pessoa comum, trinta e seis horas poderiam ser apenas um dia e meio de tormento.
Mas, para ela naquele momento, para Jocelino preso na delegacia, para o olhar predador de Leonardo e para o misterioso “senhor” por trás dele que ainda não havia se revelado, trinta e seis horas eram mais do que suficientes para virar o mundo de cabeça para baixo.
Leonardo já havia retornado antes do previsto à Vila das Nuvens Cinzentas, cheio de desconfianças, e podia a qualquer momento investigar a fundo a verdadeira identidade de “Telma”.
O “senhor” que o comandava aparentemente já havia percebido que Jocelino não estava na Lagoa Cristalina, podendo até suspeitar de “Narciso”.
A cada hora de atraso, o risco de exposição aumentava drasticamente, dando ao inimigo ainda mais tempo para montar armadilhas.
E a delegacia... aquele era o território que a família Saramago controlava havia anos. O pai de Fabíola claramente tinha conluio com a força que estava por trás de Leonardo.
Lá dentro, seria fácil demais forjar um “acidente”, “prolongar” o interrogatório, exercer pressão ou até manipular os trâmites legais.
Trinta e seis horas eram tempo suficiente para que muitas reviravoltas “inesperadas” acontecessem. Se o Sr. Barreto sofresse alguma retaliação lá dentro, ou se inventassem qualquer outra acusação para mantê-lo preso...

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