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Despertar Depois dos 1460 dias romance Capítulo 1329

Segurando o copo de açaí ainda intocado, Aeliana abaixou levemente a cabeça e encolheu os ombros para que o casaco puído escondesse melhor sua silhueta.

Logo em seguida, apertou o passo e mergulhou sem alarde naquele formigueiro humano da feira noturna. Foi como uma gota d’água caindo num rio; em questão de segundos, desapareceu por entre os feixes de luz e as pessoas que se esbarravam.

O calçadão era um mar fervilhante de luzes.

As lâmpadas coloridas das barracas formavam uma teia brilhante. O cheiro de carne assada, de sanduíche de pernil e de doces em calda se misturava ao suor e a perfumes baratos, atingindo o rosto de quem passava.

Risadas, gritos de vendedores, o barulho de espátulas batendo nas chapas e o grave estourado de caixas de som tocando funk e sertanejo se embaralhavam num bloco denso de ruído que soterrava qualquer outro som.

Letreiros em neon piscavam sem parar, as lâmpadas brancas das tendas cegavam os olhos, e os cordões de luzes dos carrinhos de lanche mudavam de cor o tempo todo.

Toda essa explosão visual borrava as linhas entre objetos e pessoas, transformando o local num mosaico trêmulo de sombras.

O trio que a perseguia jamais imaginou que ela fosse se meter num inferno daqueles.

O líder, com uma cicatriz feia no rosto, ia à frente. Para não perder Aeliana de vista, vivia ficando na ponta dos pés.

— Para de empurrar, porra! Perdi ela de vista!

Impaciente, o Cicatriz abriu caminho aos trancos. Esticou o braço esquerdo e empurrou com brutalidade o ombro de um universitário que bebia refrigerante com a cabeça inclinada para trás.

O garoto tropeçou, quase derrubando a bebida na própria roupa.

Na mesma hora, virou o rosto, vermelho de raiva:

— Caralho! Tá cego, porra...

Mas o xingamento morreu na garganta assim que ele conseguiu focar no rosto do agressor.

Viu a cicatriz assustadora que descia do osso da sobrancelha até a bochecha, emoldurando um par de olhos cruéis e sem um pingo de paciência.

— Igor! Rui!

O grito soou patético diante da avalanche de barulho da rua.

Apertando a vista, ele finalmente enxergou Igor, metros atrás, sendo esmagado por uma família inteira de turistas lentos e cheios de bagagem.

O sujeito baixo e troncudo estava praticamente soterrado por malas grandes e balões balançando diante da cara. Igor se contorcia, com as veias da testa saltando de raiva, sem conseguir avançar um palmo sequer.

Mais ao fundo, pelos cantos das barracas, a figura magricela de Rui tentava deslizar entre a fumaça de óleo e os clientes comendo, mas acabou esbarrando em um sujeito que devorava um espetinho, parecendo totalmente perdido.

Os dois estavam atolados na maré de gente, e a distância entre eles e o líder só aumentava.

O Cicatriz xingou entre os dentes e virou a cabeça de volta para a direção em que Aeliana havia sumido.

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