O ar carregava aquela umidade típica de bairros velhos, uma mistura de cheiro de comida, poeira e um leve toque de mofo. Superficialmente, o lugar não diferia em nada dos incontáveis quarteirões decadentes da Vila das Nuvens Cinzentas.
Mas Aeliana sabia que as coisas estavam longe de ser tão simples quanto pareciam.
Assim que firmou os pés no chão, sentiu instintivamente o peso de vários olhares avaliadores vindos de ângulos diferentes.
O portão de ferro deslizou silenciosamente, abrindo espaço suficiente apenas para uma pessoa.
Fingindo não ter notado nada, Aeliana seguiu o homem robusto para dentro.
A porta se fechou imediatamente atrás dela, bloqueando os sons da rua.
Lá dentro, havia um corredor comprido e estreito, por onde apenas duas pessoas podiam passar lado a lado. A iluminação era fraca, as paredes eram de cimento bruto sem pintura, e os canos no teto se cruzavam emitindo um zumbido baixo.
No final do corredor havia outra porta. Um segundo homem forte, igualmente inexpressivo, estava de guarda. Ao vê-los, fez um leve aceno de cabeça e abriu a segunda porta.
Ao atravessá-la, a visão se abriu completamente.
Era um jardim interno cuidadosamente mantido. O espaço não era grande, mas contava com um caramanchão e uma fonte. O verde era exuberante, com um caminho de pedras serpenteando, parecendo um mundo completamente distinto da rua em ruínas lá fora.
O cheiro de mofo deu lugar a um frescor de ervas e a um suave aroma de incenso. Pelos corredores ao redor do pátio, sombras de pessoas paradas em silêncio podiam ser vistas, com respirações firmes e contidas.
— Dra. Porto, por favor, entre. Cláudia está descansando — murmurou o homem que a guiava.
Ele se postou ao lado da porta com as mãos cruzadas e não disse mais nada, mas seu olhar grudou em Aeliana como as garras de um falcão.
Aeliana assentiu, com o rosto sem expressão. Apenas apertou mais a alça da maleta de vime e empurrou a porta para entrar.
Dentro do quarto, uma senhora de cabelos grisalhos e rosto amável, porém com os olhos cerrados, repousava sobre uma robusta cama de madeira entalhada.
Sentado numa poltrona clássica ao lado da cama, estava um homem de meia-idade vestindo uma camisa de linho escura, de corte tradicional.
Com os olhos baixos, ela caminhou a passos firmes até a beirada da cama e pousou sua maleta. Agiu como se estivesse alheia àquele olhar intimidante e ao imenso poder que ele representava, concentrando-se apenas na Sra. Barreiros.
E, enquanto Aeliana avaliava Raimundo, Raimundo também a avaliava.
Essa era a tal Flávia, tão famosa na Umbral Order?
Raimundo a observava sem mover um músculo.
Sua aparência era comum, ordinária até demais, do tipo que desapareceria em um piscar de olhos no meio de uma multidão. Suas roupas eram simples, feitas de um tecido já desbotado por tantas lavagens, mas extremamente limpas.
Não usava anéis nem adereços. Suas mãos exibiam apenas calos finos e marcas suaves de quem passava os dias manuseando ervas e outros compostos. Parecia, de fato, uma especialista com anos de prática.
Não tinha cara de golpista.
Essa foi a primeira conclusão de Raimundo.

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