Ao retornarem à suíte na cobertura do hotel, Décio já aguardava no lado de dentro. Vendo os dois entrarem, trancou a porta imediatamente e inspecionou o corredor e o hall de entrada de forma rápida para garantir que não haviam sido seguidos.
Com a porta fechada atrás deles, a noite abafada de Vila das Nuvens Cinzentas e a fria carnificina que haviam acabado de presenciar ficaram temporariamente isoladas do lado de fora.
O olhar afiado de Décio varreu Jocelino e Aeliana. Ao notar a palidez no rosto dela, mais evidente do que o normal, ele franziu o cenho de maneira quase imperceptível.
— Sr. Barreto, Dra. Oliveira. — Cumprimentou Décio em voz baixa, dando um passo para o lado para que passassem.
Na sala de estar, Wallace estava sentado no sofá, com um laptop de nível militar aberto à sua frente e fones de escuta nos ouvidos.
Ao ouvir a movimentação, ele ergueu a cabeça e, embora não pudesse ver, virou o rosto com precisão na direção da porta.
— Estão de volta? — Wallace tirou um dos lados do fone e percebeu que os passos de Aeliana estavam mais pesados do que o normal, com a respiração um pouco acelerada, o que o fez franzir a testa. — O que houve? As coisas não correram bem?
Aeliana havia sentido ondas de náusea e exaustão por causa dos dias seguidos usando a máscara de disfarce, que já era sufocante, somados ao choque de presenciar aquela cena brutal. Ela balançou a cabeça para Wallace, mas, lembrando-se de que ele era cego, decidiu falar:
— Sr. Wallace, eu estou bem. É que a cena foi... um pouco... — Ela não conseguia descrever. — Deixe o Jocelino te contar daqui a pouco. Eu vou lavar o rosto primeiro.
Aeliana seguiu direto para o banheiro.
Jogou água fria no rosto várias vezes até sentir que o leve odor de sangue em suas narinas e a atmosfera pesada daquele camarote haviam se dissipado um pouco.
Quando saiu enxugando o rosto com uma toalha, Jocelino já estava sentado no sofá, de frente para Wallace.
Jocelino tirou do bolso interno do paletó aqueles óculos de armação dourada e os colocou sobre a mesa de centro. As hastes pareciam idênticas às de um modelo comum.
Mas Wallace odiava aquilo.
Quando aceitava um trabalho, ele prezava pela eficiência. O alvo, o momento, o local e o método deviam ser limpos e precisos. Terminava o serviço, pegava o dinheiro e ia embora, sem deixar pontas soltas.
No entanto, esse tipo de atrocidade, que consistia em esmagar lentamente a vida dos outros na palma da mão e fazer apostas ao som de gritos agoniantes, só lhe causava repulsa.
Ele pensava que, com o passar de tantos anos e a sua aposentadoria, o mundo deveria ter mudado ao menos um pouco. Essa sujeira nojenta, mesmo que não tivesse sido completamente erradicada, deveria estar escondida nos bueiros mais escuros.
Ele não esperava por aquilo.
Naquela aparente e glamorosa Vila das Nuvens Cinzentas, dentro de um camarote privativo que usava o nome do "Cassino Serra Nobre", aquela barbárie não apenas existia, mas prosperava abertamente.

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