Houve um silêncio de alguns segundos do outro lado, seguido pela voz calma e inabalável de Aeliana, clara e firme:
— Não.
Uma única palavra. Limpa e direta.
Sem hesitação, sem conflito, sem a menor comoção. Era como se estivesse falando de um completo estranho com o qual não tinha nenhum envolvimento.
Jocelino não se surpreendeu com isso, tampouco tinha a intenção de julgá-la.
— Certo. — Respondeu Jocelino. — Eu entendo.
— Uhum. — Aeliana murmurou suavemente, desligando o telefone em seguida.
Após a ligação, a tela do celular de Aeliana escureceu.
O som da chuva lá fora diminuiu, e um pálido raio de sol começou a despontar por trás das nuvens.
Aeliana estava falando a verdade.
Ela não tinha a menor intenção de ir ao hospital.
Afinal, já havia deixado tudo muito claro da última vez.
Aquela tinha sido a última vez que ajudara a família Oliveira. De agora em diante, os caminhos dela e da família Oliveira se separariam para sempre; não haveria mais laços.
Aeliana caminhou até a janela e ficou parada em silêncio por um momento.
Ela se lembrou de Henrique, o outrora arrogante e cheio de vida segundo filho da família Oliveira. Nunca imaginou que o fim dele seria morrer de uma doença como aquela.
E também pensou na Jordana.
Aquelas pessoas se consideravam superiores, tratando a vida dos outros como insetos insignificantes que podiam ser esmagados à vontade, sem nunca imaginar que um dia acabariam atrás das grades, traídas por todos.
Aquilo que se planta, é o que se colhe.
Os ímpios sempre encontram o seu castigo.
O olhar de Aeliana recaiu sobre a mesa, onde repousava uma antiga agulha de prata, uma herança deixada por Flávia Porto.
A ponta de seus dedos deslizou pelo metal frio.
Quando Flávia a ensinava, costumava dizer que "um médico deve ter compaixão, mas também precisa de pulso firme quando necessário".
Seu caminho estava à frente e o futuro... havia coisas muito mais importantes esperando por ela para serem desvendadas.
O Sr. Porto e Jocelino falavam a verdade, Henrique estava nos seus últimos momentos.
Assim que a Jordana foi presa, não demorou para que fossem até o hospital procurar Henrique, ansiosos para lhe dar a notícia.
A luz lá fora era esmagada pelas nuvens pesadas e baixas, que a devoravam quase por completo. Apenas algumas sombras acinzentadas e sem vida conseguiam se infiltrar pelas frestas das persianas, recortando as paredes brancas e pálidas do quarto do hospital.
O monitor cardíaco emitia um bipe regular e incansável. O som lembrava um metrônomo preciso e implacável, medindo os poucos milímetros de vida que ainda restavam ao homem deitado na cama.
Henrique estava deitado ali, ainda em estado de coma.
Ele afundava silenciosamente nos lençóis brancos e macios, como se afundasse de vez.
Talvez pelo tempo passado na UTI, onde toda a sua nutrição dependia de fluidos intravenosos, Henrique estava assustadoramente magro. A camisola hospitalar pendia frouxa em seu corpo, delineando apenas uma estrutura óssea frágil.
A pele amarelada como cera envolvia firmemente o contorno de seus ossos, manchada por hematomas escuros e escaras difíceis de curar.
A respiração dele era extremamente fraca, e a subida e descida de seu peito eram quase imperceptíveis. Ele parecia uma vela cuja cera havia se esgotado, restando apenas um rastro de fumaça prestes a se dissipar a qualquer instante.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Despertar Depois dos 1460 dias