O herdeiro rico também ficou atordoado com o acidente repentino. Havia um galo em sua testa latejando dolorosamente. Ao ser sacudido e ouvir os gritos de sua acompanhante, o pânico momentâneo se transformou em uma raiva perversa. Ele soltou a mão dela com violência e, tomado por uma irritabilidade nascida do medo extremo, virou-se e começou a xingá-la.
— Porra! Agora você me pergunta o que fazer?
— Se você não tivesse me empurrado agora pouco, eu teria batido? Vagabunda! A culpa é toda sua!
A mulher ficou momentaneamente atordoada com os insultos, mas logo a raiva também a dominou. O medo e a sensação de injustiça subiram à garganta, e ela revidou com a voz embargada pelo choro:
— Você está me culpando? Se você não tivesse se jogado em cima de mim como um cachorro no cio, sem olhar para a estrada, isso teria acontecido? E agora a culpa é minha?
— Se não é sua, é de quem?
— Ligue para a polícia! O que mais podemos fazer? Chame o SAMU, chame um médico! Imbecil! Você quer que eu vá para a cadeia por sua causa?
O herdeiro estava com o rosto lívido de raiva. Enquanto tateava desajeitadamente o corpo em busca do celular, seus dedos tremiam tanto que ele nem conseguia desbloquear a tela. Ele continuava a rugir frases desconexas:
— Merda... Que azar do caralho... De onde surgiu esse miserável...
Ele finalmente conseguiu desbloquear o celular e discou os três dígitos de emergência. Enquanto a chamada completava, o coração dele parecia martelar no peito.
Assim que a ligação foi atendida, ele gritou de forma incoerente ao telefone:
— Alô! Atropelei... atropelei alguém!
— É na via auxiliar atrás da Estrada da Serra! Isso! Bem atrás do hospital! A pessoa... a pessoa não está se mexendo!
— Venham rápido!
Ao desligar, ele desabou no banco do motorista, ofegante, olhando para a figura imóvel e incerta entre a vida e a morte ao longe. Depois, olhou para a mulher ao seu lado, que chorava com a maquiagem borrada parecendo um fantasma, e sentiu um frio no coração.
O cenário de carros luxuosos, beleza e romance de momentos atrás agora dava lugar à feiura e ao pânico de quem enfrenta um desastre iminente, onde cada um só pensa em salvar a própria pele.
O cérebro do herdeiro começou a calcular freneticamente.
Se a polícia chegasse, o que ele deveria dizer?
Por quê?
Por que o destino tinha que tratá-lo assim?
Uma onda avassaladora de falta de resignação e ódio atingiu sua consciência, que estava prestes a se apagar, como um tsunami.
Ele planejou e suportou por tanto tempo, disposto a usar qualquer coisa e qualquer um, apenas para ser derrotado por um acidente tão absurdo e frívolo?
Derrotado por um casal arrogante que flertava no carro?
Essa ironia suprema fez Felipe quase vomitar sangue!
Ele queria rugir, queria lutar, mas a vida se esvaía rapidamente junto com o sangue quente. Finalmente, a escuridão o engoliu completamente, levando consigo toda a sua ambição, seus cálculos e sua indignação.
A tranquilidade da manhã foi completamente quebrada. Ao longe, ouvia-se vagamente o som da sirene da ambulância.

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