Leonardo Soares não ousava imaginar a dor que Fernanda Cruz sentia na calada da noite. Ao olhar para aquelas coisas e morder a própria mão na tentativa de aliviar a angústia no peito, o quanto ela devia ter sofrido?
Devia ser mil vezes pior do que a agonia excruciante que ele estava sentindo agora.
A visão de Leonardo Soares foi ficando embaçada, até não conseguir enxergar mais nada. Ele pressionou as palmas das mãos contra os olhos e, lentamente, continuou lendo. Fernanda Cruz mandava atualizações da sua rotina, como se ainda estivessem namorando.
As fotos, os textos... tudo deixava claro o tormento pelo qual uma garota estava passando ao tentar se desintoxicar daquela relação.
Leonardo Soares parou ao chegar em uma mensagem específica.
Foi o primeiro Ano Novo que Fernanda Cruz passou sozinha em uma estação de esqui, depois do término.
Ela escreveu: [Feliz Ano Novo, Leonardo Soares. Um dia, eu vou ser melhor no esqui do que você.]
Havia uma foto. Uma imensidão branca e ofuscante. A estação de esqui estava vazia. Até a neve tinha marcas perfeitamente alinhadas, como se o trator limpa-neves tivesse acabado de passar.
O teleférico subia lentamente. A silhueta de Fernanda Cruz refletia na porta de vidro da cabine.
Naquela noite, a Véspera de Ano Novo, enquanto milhares de famílias celebravam juntas, Fernanda Cruz estava esquiando sozinha.
Ela tinha tirado várias fotos e mandado para ele. E a cada imagem que Leonardo Soares via, os pontos de exclamação vermelhos se transformavam em adagas afiadas, perfurando-o de lado a lado.
Leonardo Soares se deu vários tapas no rosto em sequência. Abraçou a cabeça e soltou um choro abafado e sufocante.
Ele começou a bater com força na ferida aberta da própria cabeça. Só assim sentia um mínimo de alívio. Caso contrário, sentia que morreria ali mesmo, sendo fatiado vivo por aquele castigo que chegou tarde demais.
Fernanda Cruz continuou mandando muitas mensagens ao longo do tempo. Compartilhou sobre suas trilhas. As mesmas montanhas que eles costumavam subir juntos. Tirou foto dos cadeados dos namorados que eles prenderam nas correntes, das fitas vermelhas nas árvores. Andou pelos mesmos caminhos que andaram, visitou os mesmos lugares de quando viajaram.
E então, tudo parou abruptamente em um determinado dia.
A penúltima mensagem ainda era de Fernanda Cruz, perguntando: por quê?
Mas abaixo daquilo, o vazio.

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