Fernanda Cruz não conseguiu pregar os olhos. Ficou encarando o vazio até o dia clarear.
Sexta-feira costumava ser o melhor dia da semana, mas ela estava completamente sem energia. Ao sair da estação de metrô perto do trabalho, foi esbarrada por um engravatado correndo para bater o ponto e quase foi ao chão.
O cara virou para pedir desculpas sem parar de correr. Fernanda Cruz ajeitou o cabelo atrás da orelha e decidiu comprar algo para o café da manhã.
Sentiu um tapinha no ombro. Ao se virar, deu de cara com Hadassa Lacerda, sua ex-colega de quarto da faculdade e atual colega de trabalho.
A amizade de Hadassa Lacerda com ela já durava cinco anos. Foi ela quem esteve ao seu lado para suportar a dor do término e a pressão das fofocas venenosas. Depois, entraram juntas no Instituto de Projetos Arquitetônicos da Cidade Capital. Eram como irmãs.
Fernanda Cruz abriu um sorriso fraco.
Hadassa Lacerda passou o braço pelos ombros de Fernanda Cruz e aproximou o rosto, notando as olheiras profundas.
— Você tá nesse mundo da lua porque não dormiu direito? Eu te chamei um monte de vezes ali atrás, até mandei mensagem no metrô e você nem aí. Ficou parada igual uma estátua.
O metrô da Cidade Capital na hora do rush era um verdadeiro inferno de tão lotado, senão Hadassa Lacerda já teria ido até ela balançá-la e perguntar o que diabos estava acontecendo.
Os cílios de Fernanda Cruz tremeram. Enquanto caminhavam em direção à loja de conveniência, ela murmurou:
— É, não dormi bem... tive insônia.
— Insônia de novo? — Hadassa Lacerda franziu a testa. De repente, uma expressão fofoqueira iluminou seu rosto. — Peraí, ontem você não saiu com aquele encontro às cegas que o diretor Tiago arranjou? Não me diga que ficaram conversando a noite toda! Rolou clima?
Diante de Hadassa Lacerda, Fernanda Cruz não tinha motivos para esconder nada. Ela ficou em silêncio por alguns segundos antes de dizer, com a voz vazia:
— Leonardo Soares voltou...
Após ouvir o relato do que havia acontecido na noite anterior, o silêncio de Hadassa Lacerda durou muito mais tempo. Ela encarou Fernanda Cruz com os olhos arregalados, o choque rapidamente se transformando em ódio visceral:
— Puta merda! Aquele lixo humano ainda tá vivo? Então todos os meus feitiços nesses anos foram em vão! Por que ele e a piranha da amante não morreram naqueles arrastões do país E?!
E ainda voltou casado, com filho, vivendo um conto de fadas.
Desde então, Fernanda Cruz nunca mais mencionou o nome de Leonardo Soares. Mas os nomes "Fernanda Cruz" e "Leonardo Soares" continuaram circulando na turma, no departamento e dominando as rodas de fofoca de toda a Universidade P.
Embora os vídeos e as fotos tivessem sido apagados da internet, as línguas venenosas eram incontroláveis.
Diziam que Fernanda Cruz nunca foi a namorada oficial, que não passava de uma intrusa no relacionamento de Leonardo Soares e Serena Gomes.
Diziam que Fernanda Cruz foi amante de Leonardo Soares por mais de um ano e que, mesmo depois de Serena Gomes, a oficial, engravidar, ela continuou se humilhando atrás dele.
Os boatos absurdos voavam para todo lado, mas Fernanda Cruz não gastou uma única palavra para se defender.
Mas Hadassa Lacerda sabia da verdade. Fernanda Cruz não era a amante. Ela era a vítima absoluta de toda aquela sujeira.
Logo após o término, Fernanda Cruz se escondia debaixo das cobertas da cama todas as noites para chorar sufocada.
Com medo de que seus soluços acordassem as colegas de quarto, ela mordia a própria mão. Hadassa Lacerda viu marcas de dentes roxas e fundas na pele da amiga inúmeras vezes.

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