Quando ele estava prestes a se levantar, o celular no criado-mudo disparou uma série de notificações.
Era o celular de Fernanda Cruz.
Incomodada, Fernanda Cruz soltou um resmungo durante o sono, ainda com a voz chorosa. Com medo de acordá-la, Leonardo Soares ergueu o braço exausto, pegou o aparelho e o colocou no silencioso.
As mensagens não paravam de brotar na tela, permitindo que ele lesse parte do conteúdo. O olhar de Leonardo Soares, antes devastado, tornou-se afiado e frio em questão de segundos.
Ele tocou na tela, abrindo a página de senha. Hesitante, digitou a data de aniversário de Fernanda Cruz.
Desbloqueio com sucesso.
O conteúdo das mensagens era assustador e perverso:
[Seu nome é Fernanda Cruz, mora no Residencial Vista Verde do SAMU 8. O casaco branco que você usou hoje é lindo, mas não combina com uma vagabunda que nem você.]
[Seu pai é figurão na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano. Se descobrirem que a filha dele vive sendo amante dos outros, será que a reputação dele vai pro ralo?]
[A professora Vânia, que mora na vila dos funcionários da Universidade P, rega as plantas na varanda todo dia. Imagina se um vaso cai e mata alguém?]
[O tempero do último delivery tava muito sem graça. Que tal a gente trocar por uma 'sopa especial' da próxima vez?]
[O seu ouvido esquerdo ainda tá zumbindo? Fica tranquila, logo o outro lado vai sofrer também. Mas nada disso vai acontecer se você der o fora da Cidade Capital.]
[Mas se for teimosa, vou mandar alguém bater um papo pessoalmente com você. Pode continuar chamando a polícia. Vamos ver se eles conseguem te proteger todo segundo, ou se conseguem me achar.]
Com os olhos injetados de ódio, Leonardo Soares encarou aquelas mensagens de ameaça enviadas por números virtuais. Um instinto assassino ferveu dentro do seu peito.
Ele rolou a tela, lendo uma por uma, e viu a quantidade infinita de mensagens de assédio acumuladas abaixo. Era a prova clara de tudo o que Fernanda Cruz estava passando nos últimos tempos.
Leonardo Soares trincou os dentes, forçando-se a continuar lendo.
Eram tantas que só podia haver alguém manipulando tudo isso por trás das cortinas, tentando forçar Fernanda Cruz a ir embora da Cidade Capital. Uma suspeita surgiu vagamente na mente de Leonardo Soares, mas ele simplesmente não conseguia associar aquela imagem com a pessoa que existia em suas memórias.
Ele respirou fundo. Estava prestes a ligar para Diego Duarte e mandar investigar, quando a tela do celular de Fernanda Cruz acendeu de novo.
Era um número desconhecido.

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