Era de partir o coração.
Às vezes, ao acordar de madrugada, Hadassa conseguia ver o brilho fraco da tela do celular escapando por uma fresta das cortinas da cama dela.
Ela devia estar tentando arrancar aquele amor de dentro do peito, pouco a pouco, sofrendo uma dor agonizante e fatal.
Hadassa Lacerda tinha um pavor real de vê-la cometer o mesmo erro de novo.
As palavras de preocupação da amiga aqueceram Fernanda Cruz mais do que o copo de café em suas mãos. Ela olhou bem nos olhos de Hadassa Lacerda e disse, firme:
— Não se preocupe. Ele já é casado e tem um filho. Além do mais...
Fernanda Cruz abaixou o olhar e passou o crachá na catraca:
— Eu já deixei de amá-lo faz muito tempo.
.
O expediente começava às nove. Fernanda Cruz terminou o café da manhã exatamente às oito e cinquenta e cinco.
O som da máquina de ponto não parava de apitar com a chegada dos colegas. Fernanda Cruz já havia voltado ao seu silêncio habitual. Abriu o software de modelagem 3D, manipulando o teclado e o mouse com uma destreza absurda.
O modelo arquitetônico na tela era complexo e refinado. Ela girava a imagem em 360 graus tão rápido que os detalhes viravam um borrão.
O líder da equipe parou ao lado da mesa de Fernanda Cruz:
— Fernanda, deixe o modelo da Escola Municipal Vila Esperança de lado por agora. Preciso de você em outro projeto. A fase dois do Polo Turístico e Imobiliário Serra Azul vai começar. A construção do projeto caiu no nosso colo de novo. Os clientes vêm hoje à tarde para uma reunião. Dá uma olhada nos arquivos da primeira fase no nosso sistema para se inteirar.
A mão de Fernanda Cruz congelou sobre o mouse. Sem esperar uma resposta, o líder seguiu direto para a própria sala.
O Polo Turístico e Imobiliário Serra Azul inteiro era um empreendimento desenvolvido pela família Soares. A primeira fase incluía a maior e mais profissional pista de corrida nas montanhas de toda a Cidade Capital. O lugar onde ela e Leonardo Soares apostaram corrida pela primeira vez.
As áreas turísticas e toda a infraestrutura ao redor eram de luxo. Leonardo Soares a tinha levado ali para se divertir inúmeras vezes.
Fernanda Cruz conhecia aquele lugar de olhos fechados.
Ela salvou o modelo e baixou os documentos finais e as plantas de construção da primeira fase. Passou a manhã inteira lendo, mas a mente insistia em vagar.
Assim que o intervalo da tarde acabou, foi chamada para a reunião.
A luz do projetor não alcançava ali, e sua figura estava bloqueada pelos colegas à frente.
Leonardo Soares estava completamente disperso durante a reunião. Recostado na larga cadeira de couro, tentava encontrar qualquer fresta entre as cabeças dos engenheiros, arquitetos e diretores do projeto apenas para capturar um vislumbre de Fernanda Cruz.
Na meia-luz da sala, o rosto pálido e sem maquiagem dela aparecia e desaparecia. Seus lábios desenhavam uma linha teimosa. Seu maxilar estava rígido de tensão.
Estava óbvio que ela sabia que estava sendo observada. E mais óbvio ainda que estava puta da vida.
Leonardo Soares recuou o olhar.
A reunião se arrastou pela tarde inteira. Os diretores conseguiam falar por meia hora em cima de um único slide.
O maior pesadelo no mundo corporativo era reunião na sexta à tarde. Significava hora extra no fim de semana na certa. Como previsto, o líder da equipe mandou uma mensagem para Fernanda Cruz, exigindo que o plano inicial do terreno da fase dois estivesse pronto até a manhã seguinte.
Ela respondeu com um seco "Ok".
Quando a reunião acabou, Fernanda Cruz foi a última a sair da sala, observando de longe enquanto Leonardo Soares entrava no elevador cercado pelo presidente e pelos diretores.

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