Leonardo Soares continuou sorrindo de forma despretensiosa, a aura de cafajeste impossível de esconder:
— O meu banco do carona é exclusivo da minha namorada. Pensa bem antes de entrar no carro.
Fernanda Cruz não cedeu. Ela apertou os lábios teimosamente e sustentou o olhar dele num desafio silencioso. Ficou ali parada sem dizer uma única palavra, exalando um frio gélido, como um picolé recém-tirado do freezer em pleno alto verão.
Leonardo Soares foi o primeiro a se render. Ele deu um passo à frente, inclinou-se e apoiou as duas mãos na lataria do carro, encurralando-a.
Tentou negociar, testando o terreno:
— Você parece exausta. Deixa eu te levar pra relaxar e curtir a vida por um mês. Se depois disso você ainda me rejeitar, eu sumo e paro de encher seu saco.
Ele disse que Fernanda Cruz vivia de um jeito muito reprimido. Que já estava na faculdade e ainda obedecia cegamente à família, que nunca tinha aproveitado nada da vida. Era um tédio. Por isso, ele a levaria para se divertir por um mês.
Se divertir com tudo.
Fernanda Cruz acreditou. Mas Leonardo Soares não cumpriu a promessa.
Em um mês, eles saltaram de paraquedas, fizeram bungee jump, escalada, nadaram, exploraram cavernas e desceram de rapel...
Assistiram ao nascer e ao pôr do sol nas montanhas. Observaram as estrelas.
Leonardo Soares passava noites inteiras vigiando do lado de fora da barraca. Fazia ela rir. Fazia ela chorar de raiva. E depois, com aquele jeito canalha, dava um jeito de bajulá-la até ela ceder.
Tudo o que havia de emocionante na Cidade Capital, Leonardo Soares fez questão de mostrar a ela.
Foi a primeira vez que Fernanda Cruz mentiu para a família. Ficou o mês inteiro sem pisar em casa. A rebeldia da garota perfeita trazia uma sensação de excitação oculta.
Mas quando o prazo do acordo chegou ao fim, ela despertou do sonho.
Durante aquele mês, o fato de que Leonardo Soares estava correndo atrás dela se espalhou por toda a Universidade P. Ele a buscava de manhã e a deixava de noite, sem fazer a menor questão de esconder. Fotos dos dois dominaram os fóruns do campus por um bom tempo.
O círculo educacional da Cidade Capital era um ovo, e os boatos não demoraram a chegar aos ouvidos de Vânia Ferreira.
A mãe ligou e deu uma bronca dura, sem levantar muito o tom. Ordenou que ela parasse de mentir e que aprendesse a se dar o valor.
Fernanda Cruz sentiu as lágrimas de raiva se formarem nos olhos. Ela o mordeu sem piedade e começou a debater os braços, batendo nele até deixar metade do pescoço de Leonardo Soares vermelho.
Ele puxou o ar bruscamente pela boca enquanto a beijava. Mesmo com o pescoço arranhado e dolorido, ele não a soltou. Entre sussurros abafados, Fernanda Cruz o xingou de mentiroso por quebrar a promessa. A voz de Leonardo Soares saiu rouca e ainda mais impiedosa.
Ele disse que iria quebrar a promessa. Que estava louco por ela.
E que a faria ser sua, custasse o que custasse.
Fernanda Cruz podia ser um bloco de gelo, mas aquele beijo a derreteu por completo. Ela parou de bater, envolveu o pescoço de Leonardo Soares com os braços e o beijou de volta com total falta de jeito.
Tentando, de alguma forma, retomar o controle naquela guerra de beijos.
Dentes batendo contra lábios, narizes se encostando. A respiração febril de Leonardo Soares, seus braços firmes e protetores, a provocação inexperiente dos dois... tudo isso fez Fernanda Cruz ter uma certeza absoluta.
A certeza de que Leonardo Soares a amava de verdade.
Então, como o mesmo Leonardo Soares que a quis com tanta paixão pôde, sem o menor aviso, dizer que não a amava mais?

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