Cássio
Eu estava abraçado a ela quando o chorinho baixo veio pela babá eletrônica, um som pequeno, quase envergonhado, mas que atravessou o silêncio da madrugada como um alarme suave. Branca dormia profundamente contra o meu peito, o corpo finalmente mole depois de dias inteiros em tensão constante. O calor dela ainda grudava na minha pele, e por um segundo eu só quis ficar ali, fingindo que o mundo lá fora não existia.
Mas o chorinho veio de novo.
Suspirei devagar, com cuidado para não acordá-la, e me desenrolei dela com a delicadeza. Antes de sair, olhei para trás. Branca de lado, os cabelos bagunçados no travesseiro, a respiração ritmada, serena. Meu coração deu um pulo idiota. Como aquilo ainda parecia um sonho? Como ela estava ali, no meu quarto, na minha cama, na minha vida?
Fui até o quarto-hospital, ainda chamava assim na minha cabeça, mesmo que os aparelhos tivessem sido desligados há dias. Aelyn estava sentada na cama, abraçando o ursinho surrado como se fosse um escudo, os olhos grandes e brilhantes de lágrimas que ainda não tinham caído.
“Pai…”, chamou baixinho, a voz tremendo só um pouquinho. “Por que a tia Branca não dormiu aqui?”
Sorri de lado, sentindo aquele aperto familiar no peito, não de preocupação, mas de algo mais doce, mais perigoso. Me aproximei e deitei ao lado dela, puxando o cobertor até o queixo pequeno.
“Porque a gente estava… planejando uma coisa pra você”, falei, ajeitando uma mecha de cabelo que caía na testa dela. “E acabamos pegando no sono.”
Ela franziu a testa, desconfiada.
“Coisa?”, repetiu, os olhos já faiscando de curiosidade. “Que coisa?”
Merda. Erro de principiante. Aelyn tinha acordado e eu poderia tê-la feito dormir, se não fosse pela minha frase de que era para ela. Aquilo a acendeu e mandou embora qualquer resquício de sono.Eu tinha perdido antes mesmo de perceber que a batalha tinha começado.
Respirei fundo, rendido.
“Então…”, comecei, tentando soar casual. “O que você acha de voltar pro seu quarto? O de cima. O seu de verdade.”
Ela piscou uma vez. Duas. Depois os olhos se arregalaram tanto que pareciam ocupar metade do rosto.
“Meu quarto?”, sussurrou, como se falar alto pudesse fazer a ideia sumir. “De verdade? O do lado do seu?”
“Sim, o de verdade.” Sorri, sentindo o peito se abrir. “Você não precisa mais desses aparelhos. Já pode fazer alguns exercícios leves. E acho que está na hora de a gente mudar tudo lá em cima. Deixar do seu jeito.”
Ela se jogou em cima de mim num abraço apertado, os bracinhos finos me envolvendo com uma força que eu não sabia que ainda tinha.
“SIIIIIM!”, gritou, zero preocupação com o horário.
Ri baixo, abraçando-a de volta, sentindo aquele peso bom no peito, o peso da vida voltando, não do medo. “Calma, vai acordar a Branca antes da hora.”
Ela se afastou um pouco, os olhos conspiratórios.
“Então… a gente pode fazer o café da manhã surpresa pra ela?”
Olhei para minha filha. Viva. Sorridente. Ansiosa. Feliz.
“Claro que podemos.”
Levantamos juntos. Ela caminhava com mais firmeza do que nunca, sem tubos, sem ajuda, só ela e as perninhas decididas. Na cozinha, subiu na banqueta como se nunca tivesse saído dali, pegando a faca de plástico com uma naturalidade que me fez engolir em seco de emoção.
“Eu corto as frutas”, anunciou, já concentrada.
“Tome cuidado.” Apoiei-me na bancada, só observando. “E eu faço o café.”
Montamos uma bandeja ridiculamente exagerada: morangos cortados em formato de coração (ideia dela), fatias de pão com geleia, suco de laranja, café preto forte pra Branca, e um copo de leite com chocolate pra Aelyn. Ela insistiu em escrever o bilhete sozinha, com letras grandes e tortas que pareciam dançar na folha:
PRA VOCÊ TIA BRANCA 💛 TE AMO MUITO AELYN E O PAPAI
Peguei a bandeja com cuidado. Aelyn segurou meu braço, empolgada.
“Pai… ela vai gostar?”
Olhei pra baixo, para aquele rostinho iluminado. “Ela vai amar.”
Caminhamos pelo corredor em silêncio conspiratório. Quando chegamos na porta do quarto, parei. Perdi o ar.
Branca dormia de lado, o lençol embolado na cintura, os cabelos espalhados no travesseiro branco. A luz fraca do início da manhã entrava pela fresta da cortina e desenhava sombras suaves no rosto dela. Estava no meu espaço. No meu travesseiro. Na minha vida. E aquilo ainda me acertava como um soco no estômago, não de medo, mas de gratidão tão grande que quase doía.
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