Branca
Aquilo tinha sido quase um pedido de casamento.
A ideia me atingiu de uma vez, sem aviso, como se alguém tivesse puxado o chão sob os meus pés. Família. Futuro. Vida inteira pela frente.
Era demais.
Olhei para Aelyn dormindo tranquila, o peito subindo e descendo num ritmo calmo, o rosto sereno demais para alguém que já tinha enfrentado tanto. Meu coração apertou com força.
"Vamos sair do quarto", murmurei. "Vamos acabar acordando ela."
Cássio concordou com um aceno leve, mas não soltou minha mão. Nem por um segundo. Parecia que ele tinha medo de eu fugir a qualquer momento e eu não podia julgá-lo, porque eu estava realmente tentada a fazer isso, por medo. Um medo absurdo de aceitar tudo que ele estava me oferecendo.
Fechamos a porta com cuidado e caminhamos pelo corredor em silêncio, passos contidos, como se qualquer som mais alto pudesse quebrar o equilíbrio frágil que se formava entre nós.
Foi ali, longe do quarto dela, que o pânico me alcançou de vez.
"Cássio…" parei de andar. Ele se virou imediatamente. "Você não acha que estamos sendo rápidos demais?"
Ele não respondeu de imediato. Em vez disso, aproximou-se. Não invadiu. Apenas ficou perto o suficiente para que eu sentisse o calor do corpo dele.
"Não", respondeu, simples. Seguro.
Meu peito subiu rápido. O coração disparado pela resposta convicta dele.
"Eu acho que estamos fazendo tudo como deveria ser." Ele levou a mão até meu rosto, mas não tocou ainda. Esperou. "Se a gente não tivesse se encontrado no hospital… depois daquela noite no bar… você não ia querer me ver de novo?"
A pergunta me desmontou.
Porque eu nunca tinha pensado nisso.
Tudo depois daquela noite tinha sido uma avalanche de dor, medo, culpa, tragédia. Não houve espaço para imaginar o que teria sido se nada tivesse dado errado. Não deu tempo nem de pensar direito em como eu me senti ao ficar com ele.
Mas agora ele esperava uma resposta. E eu sabia.
Engoli seco.
"Sim", respondi. A voz saiu baixa. Verdadeira. "Eu ia querer te ver de novo."
Ele sorriu de leve. Não um sorriso convencido. Um sorriso aliviado.
"Então…" aproximou-se mais um pouco. "Me dá uma chance?"
Meu coração faltou sair do peito.
"A gente merece", ele continuou. "Depois de tudo que passamos até aqui. Merecemos ser felizes. Mesmo que tudo ainda pareça frágil."
Frágil.
Olhei novamente na direção do quarto de Aelyn. Depois olhei para ele, ainda com seus hematomas, e para mim, ainda com as visgadas da lesão em minha barriga.
Será que eu conseguiria não estragar aquilo?
Voltei o olhar para Cássio.
"Eu prometo tentar", falei. "Mas se as coisas fugirem do controle por causa do meu passado… eu juro que vou embora. Para livrar vocês desse fardo."



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