Cássio
Acordar doía. Não era aquela dor aguda que te faz perder o ar. Era pior. Constante. Espalhada. Cada parte do corpo lembrando, sem piedade, que tinha apanhado e que ainda não tinha se recuperado.
A perna estava pesada demais para se mexer sem cuidado. As costelas ardiam quando eu respirava fundo. O rosto parecia inchado, sensível ao menor movimento.
Eu estava quebrado, mas nada disso importava.
Porque Branca estava ali.
Enroscada em mim como se aquele fosse o lugar mais natural do mundo. Um braço atravessado sobre o meu peito, a testa encostada no meu ombro, a respiração calma, quente, real. Meu corpo pedia espaço, instintivamente. Qualquer médico diria que eu devia dormir sozinho, imóvel, sem peso nenhum sobre mim.
Mas foda-se a opinião deles.
Se doer fosse o preço para mantê-la ali, eu pagaria sem discutir.
Foi então que ouvi a porta.
O rangido baixo, cuidadoso demais para um adulto. Passinhos leves, conhecidos. Pequenos. Determinados.
Aelyn.
Continuei imóvel, os olhos fechados, fingindo dormir. Senti quando o colchão afundou levemente do outro lado. O peso mínimo de uma criança subindo na cama com a seriedade de quem entra em território sagrado.
“Papai…”, a voz saiu num sussurro preocupado. “O que você fez?”
Quase ri.
Senti os dedinhos tocarem meu braço com cuidado exagerado, depois subirem até o meu rosto, explorando os curativos, os inchaços.
“Você tá com muitos dodóis…”
Branca se mexeu antes de mim.
“Querida”, murmurou sonolenta, a voz ainda pesada de sono. “Deixa o papai dormir… ele precisa repousar. Vem, eu vou te...”
“Não”, Aelyn interrompeu, com a convicção absoluta de quem sabe mais do que todos os adultos da sala. “Eu sei que ele tá acordado.”
Ela pressionou um dedinho no meu braço.
Depois outro no meu rosto.
“Olha a risadinha, tia Branca.”
Perdi.
A risada escapou antes que eu conseguisse segurar. Um riso verdadeiro, que doeu um pouco nas costelas, mas valeu cada segundo.
Branca riu junto, se virando para mim.
“Traidor”, murmurou divertida.
“Bom dia pra você também, princesa”, falei, abrindo os olhos.
Aelyn me encarou com aquela expressão séria demais para alguém de pijama.
“O que você aprontou, papai?”, perguntou. “Por que tá com tantos dodóis? Tá doendo muito?”
Troquei um olhar rápido com Branca.
“Bateram no meu carro”, respondi, mantendo a voz tranquila. “Aí eu fiquei assim. As pessoas estão muito irresponsáveis.”
Ela virou o rosto imediatamente para Branca, buscando confirmação.
Branca assentiu. “Foi isso mesmo. Não quis te acordar de madrugada para te contar.”
Aelyn pensou por dois segundos, assimilando tudo o que estavamos contando para ela.

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