Jonathan Krieger
Eu observava a cidade através da parede de vidro como quem analisa um tabuleiro já inclinado a seu favor, esperando apenas o próximo erro do adversário para fechar a partida.
Eu sempre gostei disso. De encurralar pessoas que se acreditam intocáveis. De assistir, com calma, ao momento exato em que percebem que nunca estiveram no controle.
O juiz era um desses.
Um homem que se achava grande demais para cair. Inteligente demais para ser manipulado. Moral demais para sujar as mãos. E, ainda assim, entrou no meu jogo da forma mais previsível possível.
Sem perceber.
Não havia pressa. Nunca houve. Tudo sempre acaba retornando ao ponto certo. Ao meu ponto.
O copo em minha mão permanecia quase cheio, meu interesse não estava na bebida. Apenas girava o líquido lentamente, sentindo o controle escorrer de volta para mim, gota por gota, como sempre acontecia.
Controle não se perde. Ele apenas muda de mãos.
“E então?”, perguntei, sem me virar. “Já acharam o juiz?”
Houve um pigarro atrás de mim.
“Sim, senhor.”
Sorri de lado.
“Até que foi rápido...”, provoquei.
“Mais rápido do que esperávamos”, ele admitiu. “Não achávamos que ele fosse sobreviver.”
Dei um gole curto.
“Cássio Ravelli é esperto”, respondi. “Apanha, mas não se dobra. Ele aprende rápido os passos dos adversários.” Virei o rosto lentamente. “Isso é bom. Agora ele sabe que eu posso alcançá-lo.”
Caminhei alguns passos pelo ambiente silencioso.
“E isso cria medo”, continuei. “Mesmo que ele diga que não.”
O homem assentiu.
“Ele já saiu do hospital. Infelizmente, quem o achou foi a polícia, então estão envolvidos no caso, mas não acho que ele vá nos ligar ao caso. Seria patético demais.”
“Ótimo.” Encostei o copo na mesa. “Então agora ele sabe que estou perto de conquistar o que é meu, e vai mover meu filho de lugar e parar com a mentira de que ele está morto.”
Parei diante da janela novamente.
“A menina continua inacessível?”, perguntei.
“Sim. Só se invadíssemos a casa, conseguiríamos pegá-la, ainda assim, temos certeza de que ele tem uma central de segurança dentro de casa e ela seria levada para lá.”
Meu sorriso sumiu.
“Eu não preciso da menina”, respondi seco. “Crianças fazem barulho.”
Virei o corpo devagar. “Eu preciso da minha mulher. E sei que ela só está ali por causa da garota.”
Cruzei os braços.
“Preciso achar um ponto fraco de Branca, que saia de casa, e não precise de vigilância constante.” Inclinei a cabeça, pensando. “Outro que se acha tão bom quanto o juiz.”
O silêncio ficou pesado.
“A mãe dela é fraca”, continuei. “Vive de culpa. Fácil de dobrar. Fora que me conhece desde sempre, e acha que foi tudo um engano.” Dei um passo à frente. “Ou o irmão.”
Vi o desconforto no rosto dele.
“Homens gostam de se achar salvadores”, completei. “Sempre dão um passo maior do que podem sustentar.”
Respirei fundo.
“Branca vai vir até mim.” Minha voz saiu firme. “Não porque quer. Mas porque vai acreditar que não tem escolha. Ela sempre se preocupou demais com a família.”

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