Branca
A dor ainda estava ali.
Não gritava mais, não rasgava, mas pulsava como um aviso constante de que meu corpo tinha limites que eu insistia em ignorar. O médico tinha sido claro. Repouso absoluto. Nada de esforço. Nada de escadas. Nada de estresse.
Como se fosse possível.
Eu não conseguia ficar no quarto enquanto Aelyn dormia. Não depois de tudo. Não com a casa cheia de tensão, vozes baixas demais, passos controlados, medo andando solto pelos corredores.
Minha família, ao invés de me ajudar, parecia só atrapalhar, e eu não queria mais eles ali. Eu precisava de reforços, de alguém que segurasse a minha mão, e me ajudasse a acalmar a montanha russa que minha vida tinha se tornado.
Peguei o celular com cuidado e disquei o número que eu sabia de cor.
"Branca?" A voz da Laís veio na segunda chamada. Atenta. Presente. Como sempre.
"Eu preciso de você", falei sem rodeios. A voz saiu mais fraca do que eu queria.
Houve um segundo de silêncio.
"Já estou indo."
Engoli em seco.
"Eles estão aqui. André e minha mãe. Está tudo virando uma guerra e eu não tenho forças pra isso agora. O Cássio está ferido, meu ex... ele ... eu não sei o que fazer, Laís, mas eu preciso de paz para pensar."
"Não diga mais nada", ela ordenou. "Não discuta. Não se explica. Eu chego aí e resolvo. Pode deixar."
Um nó se formou na minha garganta.
"Eu não sei o que faria sem você."
"Você saberia", ela respondeu. "Mas não precisa."
"Obrigada!"
Desliguei com cuidado, olhando para a tela.
Laís sempre foi o meu socorro. Sempre foi quem me ajudou quando eu não tinha mais forças pra continuar.
O relógio marcava pouco mais de meia hora desde que Cássio tinha se deitado. Eu sabia que ele não estava dormindo. Aquele cabeça dura deveria estar planejando os próximos passos. Pensando em como fazer para acabar com o Jonathan. Não por mim, mas por tudo que ele está representando em nossas vidas agora.
Fui até a cozinha devagar, apoiando a mão na bancada, respirando fundo a cada passo. Preparei um chá simples. Nada elaborado. Do jeito que ele gostava. Separei algumas bolachas, ajeitei tudo numa bandeja pequena.
Cuidar dele parecia a única coisa que me mantinha inteira naquele momento.
Foi quando ouvi as vozes.
Primeiro baixas. Depois mais firmes. Depois... confronto.
Parei no meio do caminho.
O coração acelerou.
Segui em direção à sala, cada passo acompanhado por uma fisgada incômoda no abdômen e um gemido baixo. Quando cheguei, encontrei a cena que eu já imaginava, mas não esperava testemunhar daquele jeito.
Laís estava de pé, no centro da sala.
Calma. Firme. Dona do próprio espaço.
Minha mãe e André estavam parados à frente dela, visivelmente desconcertados.
"Você chamou ela pra nos tirar daqui?", André perguntou, incrédulo.
"Chamei." falei firme.
"Já que vocês não escutam a Branca, vão escutar alguém em quem ela confia." Laís respondeu, sem elevar a voz.
Meu estômago revirou.
"Isso é um absurdo", minha mãe rebateu. "Nós somos a família dela."
Laís inclinou a cabeça, estudando-a.
"Família não controla", disse. "Família protege sem obrigar. E eu sou família dela também."
André bufou.
"Nós só estamos tentando ajudar."
"Não", Laís respondeu, direta. "Vocês estão atrapalhando."
O silêncio que caiu foi pesado.


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