Branca
A morfina deixava tudo mais lento.
Não apagava os pensamentos, só os tornava mais espaçados, como se cada lembrança precisasse atravessar um corredor comprido antes de me alcançar. A dor tinha recuado para um segundo plano, ainda presente, mas abafada e distante. O corpo finalmente tinha cedido. A mente, não.
Eu fiquei olhando para o teto branco do quarto do hospital enquanto as imagens se organizavam sozinhas.
A primeira conversa. Eu lembrava agora com mais clareza.
Lembrava do nome da Clara surgindo quase como um detalhe. Algo lateral. Um ruído pequeno diante do que realmente me atravessava naquele momento. Naquela noite, tudo o que eu conseguia ouvir era Pedro. Cássio me chamou para falar sobre a acusação de venda do coração do meu filho. Como se eu fosse uma louca por dinheiro.
Como eu poderia ter ido mais fundo naquela conversa, se estavam dizendo que eu tinha vendido o coração do meu filho?
Era isso que tinha pesado minha escuta. Não Clara.
Pedro.
Naquela primeira vez, tudo tinha girado em torno dele. Da doação. Do processo. Da culpa que tentavam me empurrar. Clara era só um nome perdido no meio do caos. Um pano de fundo que eu não tive forças para puxar.
Hoje não.
Hoje, eu fechei as lacunas.
Hoje, eu ouvi o que antes eu não conseguia ouvir.
A conversa de hoje não era sobre Pedro. Era sobre Clara. E sobre Cássio.
Sobre decisões tomadas emr cima da minha vida. Sobre favores pagos. Sobre caminhos fechados sem que eu tivesse escolha. Sobre como alguém que dizia me proteger tinha sido parte do motivo pelo qual eu perdi tudo.
O som da porta se abrindo me tirou do torpor.
Ele entrou devagar. Com seu jeito imponente, mas dessa vez tinha algo novo ali. Culpa.
Uma que ele nunca carregava. Cássio era o tipo de homem que sempre tinha certeza do que fazia. Não importava a quem doesse, por que agora era diferente?
Ele parou a poucos passos da cama e me encarou em silêncio por um instante. Eu percebi o alívio no rosto dele antes mesmo que ele tentasse disfarçar.
“Como você está se sentindo?”, perguntou baixo.
“Dopada de morfina”, respondi. “Mas bem.”
Ele respirou fundo, como se só agora tivesse se permitido relaxar.
“Ainda bem”, disse. “Eu não gosto de te ver com dor.”
Assenti.
O clima ficou estranho. Suspenso. Como se qualquer palavra errada pudesse quebrar algo que já estava trincado.
Fui eu quem falou primeiro.



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