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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 73

Cássio

Aquele dia não tinha como piorar.

Mas piorou.

Eu estava em pé no quarto, olhando para a Branca deitada na minha cama, imóvel demais, silenciosa demais, e a sensação era de que o chão tinha cedido sob os meus pés sem aviso.

Eu só queria desabafar.

Confiava nela para isso. Confiava porque, em algum ponto desse caos todo, ela tinha virado meu lugar seguro. A pessoa diante de quem eu não precisava ser juiz, nem pai impecável, nem homem inabalável.

Só esqueci um detalhe.

Eu estava envolvido até o pescoço na demissão dela.

Eu era o responsável.

A realização veio tarde demais e doeu como poucas coisas na minha vida. Agora que eu a conhecia de verdade. Agora que eu sabia quem ela era. Agora que ela já tinha arrancado um pedaço do meu coração sem pedir permissão, eu enxergava com clareza o tamanho da injustiça que eu tinha cometido.

Eu tinha mascarado tudo por um tempo. Justificado. Organizado mentalmente. Empurrado para baixo do tapete da necessidade. E agora me perguntava se ainda havia conserto.

Se ela quisesse ir embora… eu não poderia fazer nada.

Não podia obrigá-la a ficar. Não tinha esse direito. Não tinha esse poder.

Merda.

Eu tinha sido um idiota egocêntrico. Um homem que achou que boas intenções justificavam decisões sujas. Só pensei nas consequências quando tudo já estava insuportável demais para ignorar.

Ela estava ali. Na minha cama. Com os olhos fechados, respirando fundo, tentando não sentir a dor que se espalhava pelo corpo.

Mas eu sabia.

Aquela dor não era só física. Era na alma. E talvez essa… não tivesse conserto.

Esperei os trinta minutos passarem como quem espera uma sentença. O relógio parecia zombar de mim a cada segundo arrastado. A respiração dela estava curta, ela mal se mexia e eu sabia que aquilo não era um bom sinal, mas eu dei um tempo para o remédio fazer efeito e precisava respeitar, mas minha vontade mesmo era de pegá-la e levá-la agora mesmo para o hospital.

Quando finalmente me aproximei da cama, minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia.

“Como está a dor agora, Branca?”

Ela suspirou antes de responder.

“Melhor.”

Não acreditei nem por um segundo.

“De zero a dez”, insisti.

Ela demorou.

“Oito.”

Meu estômago revirou.

“Então vamos para o hospital.”

“Não precisa”, ela respondeu rápido demais. “Já está passando.”

“Precisa, sim.” Minha voz saiu firme. “Não vou discutir isso com você.”

73. Dor 1

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