Branca
O sono começava a cobrar seu preço. Lá fora, apenas o brilho das estrelas iluminava o céu. Meus olhos lutavam para se manterem abertos, mas eu estava quase desistindo da batalha.
Não era aquele cansaço pesado, era um sono quente, confortável, que fazia o corpo afundar no sofá sem resistência. Aelyn dormia com a cabeça apoiada na minha perna, a respiração calma, regular. Uma das mãozinhas segurava o tecido da minha blusa como se tivesse medo de me perder até nos sonhos.
Passei os dedos com cuidado pelos cabelos dela, repetindo o gesto devagar, quase automático.
O desenho na televisão estava chegando ao fim. As cores iam ficando mais suaves, a música mais baixa. Bocejei, cobrindo a boca com a mão, sentindo os olhos arderem de sono.
Foi quando percebi o olhar.
Levantei a cabeça devagar.
Cássio me observava de um jeito diferente. Não era o olhar atento de antes, nem o preocupado, nem o controlador. Era algo mais silencioso. Mais fundo. Como se ele estivesse tentando memorizar aquela cena.
“O que foi?”, perguntei baixo, para não acordar a Aelyn.
Ele desviou o olhar por um segundo e depois voltou para mim.
“Nada”, respondeu. “Só estou admirando vocês duas.”
Senti o rosto esquentar na mesma hora.
Empurrei de leve o braço dele com o cotovelo.
“Para com isso”, murmurei. “Não tem motivo nenhum pra me deixar sem graça.”
Ele riu, baixo, daquele jeito que sempre parecia íntimo demais para alguém que eu insistia em manter à distância.
“Tem sim.”
Ignorei.
“É melhor a gente levar a Aelyn pra cama”, falei. “Ela já dormiu. E vai ficar toda dolorida se continuar nessa posição.”
Ele assentiu e se levantou com cuidado, pegando a filha no colo com uma facilidade que sempre me desmontava um pouco. Antes de sair da sala, olhou para mim.
“Fica aí. Quero conversar com você antes de ir dormir.”
Concordei com a cabeça.
Sozinha no sofá, ajeitei a manta sobre as pernas e deixei o silêncio me envolver. Pensei na minha mãe, provavelmente enfurnada no quarto de hóspedes, remoendo cada palavra que eu tinha dito. Pensei se ia direto para o quarto depois… ou se ficava ali mais um pouco, naquela bolha improvável de calma.
Minha mãe nunca foi uma mulher fácil, mas eu sempre soube lidar com isso. Mas tratá-la da forma que ela fez... aquilo era novo. Não sabia como ela iria reagir.
"Percebi que ficou pensativa em boa parte do filme. Está tudo bem?"
Ele falou assim que voltou minutos depois.
"Minha mãe e seu jeito autoritário. Mas não se preocupe, eu resolvo."
Cássio me olhou e sentou-se ao meu lado.
Perto demais.
O joelho dele encostava no meu, o braço apoiado no encosto atrás de mim. Não era uma conversa casual. O corpo dele dizia isso antes mesmo da boca abrir.
Quebrei o clima antes que ele o fizesse.
“Ela não estava lá quando você foi levar a Aelyn?”
Ele negou com a cabeça.
“Não. Vi a luz do quarto de hóspedes acesa quando fui ao banheiro mais cedo.”
“Bom…” dei de ombros.
Ele me observou por um instante.
“Vocês brigaram?”
Soltei o ar devagar.
“A convivência nunca foi fácil”, respondi. “Mas eu sempre abaixei a cabeça.” Olhei para frente. “Agora não mais.”


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz