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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 46

Cássio

Ergui o rosto dela com cuidado, os dedos deslizando devagar sob o queixo, quase como se eu estivesse pedindo permissão para entrar naquele território frágil.

“Eu já lidei com psicopatas como ele”, falei baixo, a voz firme, mas sem urgência. “Já vi de tudo naquele tribunal. Gente que mata sem piscar, que manipula com um sorriso, que ameaça como quem fala do tempo. E eu te digo uma coisa, Branca: eu não recuo.”

Os cílios dela estremeceram. Não era medo por si mesma, esse ela já tinha aprendido a engolir em silêncio. Era o medo que se espalhava para os lados, como tinta em água: medo por Aelyn. Medo por mim.

Ela deu um passo para trás, pequeno, quase relutante.

“Acho que o André tem razão”, murmurou. “Talvez fosse melhor eu ir embora. Tirar esse problema de cima de vocês.”

Soltei um riso curto, seco.

“Ir pra onde, exatamente?”

Ela ergueu os ombros, gesto cansado que já parecia ensaiado.

“Se ele me achou aqui… vai me achar em qualquer lugar. Mas pelo menos vocês ficariam fora disso.”

Dois passos. Foi só o que precisei.

Segurei os braços dela, não com força, mas com presença. Virei-a devagar para mim, os polegares roçando a parte interna dos braços dela, sentindo a pele arrepiar sob o toque.

“Você não vai a lugar nenhum”, falei, olhando dentro dos olhos dela. “Não enquanto eu não colocar esse filho da puta algemado. Você só sai dessa casa quando tudo estiver resolvido.”

Um riso torto escapou dos lábios dela, meio exausto, meio provocador.

“Você é um mandão do caralho, senhor juiz.”

Sorri, deixando o canto da boca subir devagar.

“Você ainda não viu nada.”

Ela suspirou, o ar saindo longo, como se estivesse entregando uma batalha que já sabia perdida, pelo menos por hoje.

“Tá bom”, cedeu, a voz mais suave. “Vamos ver até onde isso vai.” Ergueu o olhar, mais perto agora. “Mas se a coisa ficar feia de verdade… eu vou embora. A Aelyn tem uma vida inteira pela frente. Você também. Não tem por que carregar um peso como eu.”

Aquilo acertou em cheio.

Estreitei os olhos e levantei o rosto dela de novo, dessa vez com mais lentidão, o polegar traçando a linha da mandíbula.

“Se eu te achasse um peso”, falei sem rodeios, quase colado nela, “você já teria ido embora há muito tempo. Não acha?”

Ela me estudou por longos segundos, aqueles olhos castanhos que sempre pareciam ver além do que eu deixava transparecer.

“Você é um enigma pra mim, senhor.”

Sorri de lado.

“Para de me chamar de senhor.”

Ela arqueou a sobrancelha, um brilho travesso surgindo no meio do medo.

“E desde quando pulamos pro primeiro nome com o patrão?”

Ri baixo, o som rouco escapando antes que eu pudesse segurar.

“Desde que eu te fodi em cima da mesa de jantar”, respondi, sem desviar o olhar. “E desde que eu passo o dia inteiro pensando em te arrastar pro meu quarto… acho que a gente pode pular as formalidades.”

Ela riu, uma gargalhada solta, verdadeira, que iluminou o rosto inteiro por um segundo e fez meu peito apertar de um jeito bom.

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