Branca
Eu me afastei devagar.
Não porque quisesse distância, mas porque precisava entender. O beijo ainda queimava nos meus lábios, a ordem ainda ecoava na minha cabeça, e nada fazia sentido.
“O quê?”, repeti, encarando-o. “Amanhã é a minha folga, Cássio. A gente combinou.”
Ele me observou por um instante longo demais. Então sorriu.
Mas não foi um sorriso leve. Foi sério. Contido.
“As coisas mudaram.”
Aquilo me irritou mais do que eu gostaria de admitir.
“Mudaram como?” Joguei meu corpo para trás. “Eu tenho direito à minha folga. Eu fiz tudo o que você me pediu desde que cheguei aqui. Tudo. Não tem como você simplesmente cancelar.” Respirei fundo. “Eu já marquei com…”
Ele me interrompeu com o olhar.
Os olhos se estreitaram de um jeito que eu já tinha aprendido a reconhecer. Havia algo ali. Controle. Atenção. E… ciúme? Impossível... não podia ser, podia?
“Marcou com quem, Branca?”
O tom não era agressivo. Era perigoso.
“Agora mesmo que você não vai.”
Eu comecei a rir, incrédula, e me levantei de vez.
“Você não tem esse direito.” Balancei a cabeça. “Você não pode me prender assim. Não pode decidir o que eu faço, com quem eu saio, como se eu fosse uma extensão da sua casa. Isso aqui deixou de ser um trabalho e virou cárcere privado, foi?”
Ele se levantou também.
Sempre me surpreendia o tamanho dele. A presença. A forma como ocupava o espaço sem esforço algum.
“Olha o que eu recebi”, disse.
Vi quando ele levou a mão ao bolso da calça. O gesto foi simples. O efeito, devastador.
Ele estendeu um cartão.
Assim que peguei, o chão pareceu ceder sob meus pés. O nome. O sobrenome. O peso de tudo que eu tentei deixar para trás.
Meu corpo vacilou.
Cássio me segurou no mesmo instante, firme, impedindo que eu caísse.
Levantei os olhos para ele.

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