Felipe
Chegamos ao apartamento carregados de sacolas. A loja de bebê tinha nos sugado por quase duas horas, mas valera cada segundo. Aelyn estava radiante, os olhos brilhando enquanto carregava as sacolinhas com bodies e ursinhos. Eu a observava em silêncio, querendo gravar aquele sorriso para sempre na memória. Era assim que eu queria vê-la todos os dias: leve, feliz, cheia de vida.
Colocamos tudo no quartinho que ainda estava vazio, só com as paredes brancas esperando os detalhes que ela escolheria amanhã com o pintor. Os móveis chegariam em cinco dias. Eu a observava dobrando as roupinhas com tanto cuidado, como se cada pecinha fosse sagrada.
"Você está linda assim", murmurei, encostado no batente da porta.
Ela virou o rosto e sorriu, aquele sorriso que sempre me desarmava.
"Eu tô feliz. Muito feliz."
Eu queria acreditar que era suficiente. Queria congelar esse momento e fingir que o mundo lá fora não existia. Mas não conseguia. A conversa com Liana na garagem ainda ecoava na minha cabeça como um ruído baixo e insistente. E depois a atitude dela ir até a clínica afrontar Aelyn não tinha me descido.
Aelyn foi para o banheiro tomar um banho. Assim que a porta se fechou, eu soltei o ar que nem sabia que estava prendendo. Sentei no sofá e passei as mãos no rosto com força.
Aquela maldita filha da puta tinha ido atrás da minha mulher. Tinha tido a audácia de marcar uma consulta só para jogar veneno, para tentar abalar a Aelyn, para insinuar que eu não queria nosso filho. Como se eu fosse capaz de trocá-la por qualquer coisa nesse mundo.
Peguei o celular e disquei o número de Rangel, meu amigo delegado.
Ele atendeu no segundo toque.
"Fala, Felipe. Quanto tempo."
"É, eu sei que só te ligo quando tenho algum problema", respondi, tentando manter o tom leve, mas falhando. "Então já sabe."
Ele riu do outro lado.
"Então prefiro quando você não liga. Conta aí. Que que aconteceu?"
Eu contei tudo. A demissão da Liana, a cena com o padrinho, a consulta na clínica da Aelyn, as ameaças veladas, o jeito como ela falou do bebê como se fosse um empecilho. Rangel ficou em silêncio por um momento.
"Isso ficou claro como uma perseguição, cara. Eu posso abrir uma medida protetiva hoje mesmo. Você quer seguir com isso?"
"Quero. Mas se ela continuar, eu vou abrir um processo contra ela. Não vou deixar isso chegar perto da Aelyn de novo."

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