Aelyn
O procedimento tinha durado quarenta minutos.
Não era dos mais complexos, uma harmonização facial que eu fazia com frequência suficiente para que meu corpo soubesse os movimentos antes da cabeça, mas hoje eu tinha precisado de uma concentração extra para manter o foco onde precisava estar e não em outro lugar.
A paciente saiu satisfeita, daquele jeito que eu gostava de ver, não eufórica, mas bem, com aquela expressão de quem está começando a se reconhecer de novo.
Esse era o motivo pelo qual eu tinha escolhido aquilo.
Fui até a pia lavar as mãos, e foi exatamente quando saí da sala de procedimento que a Camila apareceu no corredor. Minha secretária estava com uma expressão de quem estava com um segredo nas mãos.
Vi o arranjo de tulipas logo em seguida.
Brancas e lavanda, num vaso de vidro transparente com aquelas folhas verdes que faziam a coisa toda parecer saída de uma vitrine de loja cara. Grande demais para ser discreto, bonito demais para ser ignorado.
Fiquei parada.
"O que é isso?" questionei já sorrindo para minhas flores favoritas.
"Chegou agora", a Camila disse, com uma neutralidade que era claramente um esforço. "Para a doutora."
"Para mim?"
"Para a doutora Aelyn Ravelli." Ela me entregou com aquele cuidado de quem está manuseando algo frágil ou de quem quer ter certeza de estar presente no momento em que eu abrisse. "Veio com cartão."
Peguei o arranjo.
Era pesado daquele jeito bom, sólido, daquele tipo de coisa que foi comprada com atenção e não na pressa. Cheirei sem querer, aquele perfume específico de tulipa que é suave mas presente e então peguei o pequeno envelope preso entre as hastes.
Abri.
A letra era dele.
Eu reconhecia antes de ler uma palavra, aquela caligrafia que era organizada demais para ser casual, que tinha aquela qualidade de alguém que aprendeu a escrever prestando muita atenção em cada traço porque cada traço tinha sido uma conquista.
Aelyn,
Eu errei ontem. Não deveria ter te beijado daquele jeito, sem aviso e sem ter conversado antes. Peço desculpas por isso.
O que eu sinto por você, porém, não foi um erro. É real e continua sendo.
Gostaria de ter a chance de fazer as coisas do jeito certo. Sem pressa e sem surpresas.
Janta comigo? Escolhe o dia, o horário e o lugar que preferir.
Felipe Bayron
Fiquei olhando para aquelas linhas por um tempo que provavelmente era demais para estar parada no corredor da minha clínica.
Para qualquer outra pessoa seriam poucas palavras simples, um pedido de desculpas, um convite, nada extraordinário. Mas eu conhecia o Felipe. Sabia o quanto aquilo tinha custado, o quanto cada uma daquelas palavras tinha que ter passado pelo filtro do raciocínio e do orgulho e de tudo que ele carregava antes de chegar ao papel.
Fechei o bilhete respirando fundo e contendo a emoção que se alastrava em meu peito.
A Camila estava olhando para mim com aquela expressão de quem sabe e quer muito que eu confirme que sabe.
"É de alguém especial?", ela perguntou, daquele jeito de secretária que é eficiente demais para ser impertinente mas que não consegue ser completamente indiferente.
"É de alguém especial", eu disse, daquele jeito que não confirmava de quem era.
Ela acenou com a cabeça, satisfeita com a não-resposta, e foi em direção à recepção.
Eu entrei no meu consultório, fechei a porta, e fiquei parada no meio da sala segurando o arranjo de tulipas.
E então dei um pulinho.
Pequeno. Involuntário. Daquele tipo que acontece quando alguma coisa boa demais chega antes que você consiga conter a reação.
Cobri minha boca com a mão com vontade de gritar.
Olhei para a porta fechada.
E dei mais alguns, animada.
O bom humor durou exatamente o tempo que levou para eu me sentar na cadeira e começar a pensar de verdade.
Flores eram lindas.
O bilhete era lindo.
Mas flores e bilhetes não apagavam quatro anos. Não explicavam por que ele tinha esperado até existir um Luciano para se mover. Não me diziam se aquilo era o Felipe descobrindo o que queria ou o Felipe reagindo ao que estava com medo de perder, que eram coisas parecidas mas que não eram a mesma coisa.
Peguei o celular.
Mandei mensagem para o Luciano.
![298. [Segunda Fase] - Felipe mandou flores 1](https://ptapi.freechap.com/assets/chapters/1537319/0.png?v=1781474320)
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