Felipe
Eu devia ter ido embora.
Essa era a conclusão mais razoável disponível, e eu estava ignorando-a com a mesma consistência com que tinha ignorado todas as outras conclusões razoáveis da noite.
A sala da Aelyn era daquele tamanho que fica pequeno quando você anda de um lado para o outro com frequência suficiente, e eu tinha descoberto isso nos últimos quarenta minutos.
"Para", a Serena disse, do sofá, sem tirar os olhos do celular.
"Não estou fazendo nada."
"Você está andando em círculos."
"Estou pensando."
"Você está andando em círculos enquanto pensa." Ela levantou o olhar por um segundo. "É perturbador."
Sophia estava na poltrona com aquela expressão de quem está se divertindo silenciosamente e tentando não demonstrar, o que significava que estava demonstrando completamente.
Parei no meio da sala.
"Liga de novo para a sua irmã", eu disse para a Serena.
Ela me olhou.
"Eu não."
"Serena..."
"Ela já disse que chega mais tarde." Voltou para o celular. "Deixa ela namorar um pouco, credo."
"Você não se preocupa com ela?" Olhei de uma para a outra. "Com onde esse cara pode levá-la? Com o que pode fazer com ela? Vocês nem o conhecem direito, eu não o conhecia, ninguém..."
"Irmão." A Sophia falou com aquela calma dela que era a coisa mais irritante do mundo. "Eles devem estar fazendo coisas de namorados. Para de ser ciumento. Logo ela aparece."
Aquilo chegou de um jeito que eu não estava preparado. Meu peito doeu com a informação que eu já sabia, mas que não queria encarar.
"Prefiro não pensar nisso", eu disse, e saiu mais seco do que eu pretendia.
Não queria ficar olhando ali para a cara das duas, que não queriam me ajudar com nada. Fui para a cozinha para buscar um copo de água e me acalmar.
Sim, eu precisava me acalmar, por que dentro de mim parecia que algo estava se despedaçando dentro do meu peito.
A tia Branca e o tio Cássio estavam viajando, umas férias que eles tinham adiado por anos e que eram completamente merecidas. Os meus pais também. Uma viagem que minha mãe tinha organizado com aquela eficiência dela, dois casais, duas semanas fora. Sem filhos para perturbar.
Eu me sentia responsável pelas três.
Era isso. Era só isso.
Peguei o celular da bancada.
Liguei para a Aelyn.
Chamou. Chamou. Chamou.
Caiu na caixa postal.
Liguei de novo.
Mesma coisa.
De novo.
Recusada dessa vez, o que significava que ela tinha visto o nome, avaliado, e escolhido não atender.
A mensagem chegou trinta segundos depois.
Estou ocupada. Alguma das meninas botou fogo na casa? Se não, a gente conversa quando eu chegar.
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